Ladies, Wine, Design and Processo Criativo

Quando eu e a Paula decidimos começar os encontros do Ladies em Porto Alegre, em julho de 2017, sabíamos que seria importante termos uma validade para o projeto. Como os eventos começariam em outubro, decidimos dividir os temas em duas temporadas de 3 encontros.

Sendo assim, após o sexto encontro, fechamos o ciclo oficial do Ladies, Wine and Design em Porto Alegre. Mas antes de começarmos as despedidas, vamos curtir esse momento até o fim, revendo o que conversamos no evento que tinha como tema “Processo Criativo”.

Como os encontros anteriores haviam sido no verão, ainda não havíamos tido a oportunidade de beber um vinho tinto no frio. O último Ladies nos trouxe mais esse motivo para celebrar! Nos encontramos em um espaço confortável e quentinho chamado Origami Co., que é um coworking-café-espaço de eventos no bairro Bom Fim.

Para nos manter aquecidas, contamos novamente com o apoio da vinícola Salton, que nos enviou seu rótulo Talento, um vinho que passa a sensação de veludo na boca. Para harmonizar nossa noite, o Sim Sala Bim preparou porções de falafel de grão de bico que combinaram bem com os strudels da Doces de Vênus.

 

Para nos aprofundarmos na temática da noite, convidamos a designer e sócia da Bendito Design, Titha Kraemer, para compartilhar conosco sua experiência e conhecimento em Processo Criativo. Antes de abrir as conversas para o grupo, ela nos apresentou dois cases realizados pela agência para as marcas Kellogg’s e Ruffles.

Titha contou que a Kellogg’s estava desenvolvendo uma nova embalagem para produtos integrais, onde uma das frases centrais do briefing era: appetite appeal sensacional. Reconhecendo algumas limitações que os produtos integrais possuem nas suas cores, mesmo antes do cliente ter aprovado as primeiras linhas criativas, foi decidido chamar uma parceira – a fotógrafa Letícia Remião, especialista em fotos para o segmento da alimentação que valoriza seus elementos naturais e evita intervenções de pós edição – para realizar um estudo que respeitasse as características dos produtos.

Um vídeo case foi desenvolvido para tangibilizar a sensibilidade do trabalho de Letícia, que, com cuidado e atenção aos detalhes, posicionava grão por grão dos cereais em seu estúdio para que todas as singularidades fossem representadas na fotografia. Olhar o processo dessa produção e a dedicação colocada em cada elemento nos fez reconhecer a força que uma foto real tem.

Acompanhamos o restante do case, que teve as embalagens diagramadas pela Bendito contendo todas as informações necessárias nos tamanhos grandes e pequenos, sem perder a qualidade e o appetite appeal. Com alguns clientes é fundamental ousar e retomar processos mais analógicos que consigam comunicar o que realmente importa. Sabemos que não é sempre que há budget para fotos super profissionais, mas cada vez mais as marcas reconhecem na entrega esses cuidados.

Falando sobre como os clientes andam se comportando, as ladies do sexto encontro lembraram que muitos já começam a tentar absorver internamente o trabalho de agências e studios de design. Com tantas opções de “faça você mesmo”, o olhar de uma especialista pode ficar em segundo plano quando há menos verba disponível.

O segmento da fotografia é um ótimo exemplo dessa mudança, como bem trouxe Letícia no encontro.

“Hoje, muitas pessoas tem smartphones com boas câmeras. Existem profissionais que tiram fotos muito boas e não são fotógrafos. Por outro lado, há aqueles que são muito ruins, mesmo com uma super câmera. O trabalho acaba sendo um misto de experiência e olhar – que nem todos possuem.”

O segundo case apresentado pela Titha foi da Ruffles, no qual o processo criativo teve etapas de sondagem com adolescentes de 13 a 17 anos, com o objetivo de desenvolver uma nova embalagem para o produto – conversando mais com a realidade do público jovem. Achei interessante perceber que pouco se falou em pesquisa nos encontros do ladies, mesmo não tendo um encontro focado no tema; é curioso como não são todas as profissionais  que consideram essa metodologia em suas criações.

Fiquei contente em ver como a Titha e a Bendito tem a pesquisa no seu processo criativo, não só por ser um trabalho que a Zest faz, mas por ver como as entregas fazem mais sentido quando há um aprofundamento. Sabemos que nem todo projeto tem tempo e verba para longos estudos, mas assim como na fotografia, olhar e experiência fazem toda a diferença. Além disso, faz parte do nosso trabalho se adaptar às demandas dos clientes.

Conversando com o público alvo da nova campanha da marca Ruffles, se descobriu que adolescentes mantém o costume do desenho – seja para descontrair ou espantar o tédio. Dessa forma, nas embalagens desenvolvidas pela Bendito, foram apresentadas 3 opções, onde as batatinhas recebiam intervenções em caneta, dando vida ao produto e ampliando o sentido das brincadeiras.

“As crianças não querem uma embalagem clean, elas querem uma história” – afirmou Titha, apresentando esse contraponto de que muitas vezes o que os clientes pedem, pode não fazer sentido para os consumidores.

Após conhecermos um pouco mais sobre o trabalho da Titha, começamos a conversar sobre como há um número considerável de studios de design criados por mulheres em Porto Alegre. Só nesse Ladies havia três!

Houve um aumento na visibilidade de cases sobre empresas que são comandadas ou possuem mulheres na diretoria. Na lista organizada pela Forbes em 2017 sobre as mulheres mais poderosas do Brasil, encontramos 40 nomes. Entre os exemplos há profissionais de diferentes idades e áreas, o que comprova que o lugar das mulheres é onde elas quiserem e conseguirem espaço para serem reconhecidas. 

As mulheres não estão apenas conquistando lentamente mais cargos, como aumentando o faturamento das empresas. Uma pesquisa realizada pela McKinsey revela que empresas lideradas por mulheres tem, em média, rendimentos 21% acima da média industrial do seu país. A diversidade também foi comprovada como influenciadora no desempenho dos negócios. “Empresas com baixo percentual de diversidade — em qualquer categoria — têm um desempenho quase 30% inferior à média de sua área. Já aquelas com boa distribuição de diversidade étnica e cultural têm uma tendência 33% maior de performance acima da média.”

Mas como saber quais negócios tem mulheres na sua gestão?

O Google, que está sempre um passo à frente, disponibilizou no My Business a marcação de “negócio liderado, fundado ou com dona uma mulher.” Agora temos mais uma forma de escolher se queremos ou não apoiar o empreendedorismo feminino: investindo nessas marcas o nosso dinheiro.

Neste mesmo tema, conversamos sobre o dilema “pagar as contas x construir portfólio”. Realizar projetos inovadores atrai novos clientes – confirmamos isso no encontro sobre portfolio review – mas estes não necessariamente são aqueles com o maior budget. Como em tudo na vida, é importante haver equilíbrio para que os negócios se mantenham saudáveis e as profissionais menos preocupadas com os boletos.

Por outro lado, algumas mulheres possuem barreiras na hora de se posicionar com os clientes, algo que as participantes do encontro afirmaram ser algo que “faz parte do jogo”. Dificilmente uma profissional que não se sente 100% preparada irá dar o próximo passo na sua carreira. E isso fala muito sobre como temos dificuldade em nos mostrarmos vulneráveis, pois aprendemos que só sobrevivem os fortes.

Conhecendo tantas histórias de mulheres que foram lá e fizeram nos 6 Ladies que realizamos, percebemos que essa dificuldade é generalizada. Não houve um encontro onde não tivesse pelo menos uma profissional sentindo algum sintoma da síndrome da impostora.

O que a gente esquece muitas vezes, nessa rotina maluca e competitiva, é que mulheres possuem muitas qualidades para o mundo dos negócios. Nossa habilidade de ser polvo – como Letícia Remião poeticamente afirmou – pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, ser multitask e ter a capacidade de gerenciar – são algumas características que ampliam nosso potencial criativo.

E isso, ladies, são ferramentas que precisamos tomar como nossas. É difícil desconstruir alguns comportamentos, mas precisamos começar de algum jeito. Cada uma no seu tempo, vamos juntas tornar o futuro feminino.

 

Referências trazidas no encontro:

Documentário Chega da Fiu FiuThink Olga

Documentário no Netflix – The Mask You Live In

Documentário no Netflix –  The True Cost

Ted Talk – Chimamanda Ngozi Adichie

 

Para deixar saudade, as fotos do nosso último Ladies, Wine and Design <3

Creative Labels | Ladies, Wine and Design

Nosso quinto encontro era aguardado por diversas razões. A primeira, por termos a oportunidade de conversar com Renata Rubim, designer que trabalhou na vanguarda do design de superfície no Brasil, tema que a inspirou a escrever livros e se aprofundar no olhar sobre superfície e cores.

A segunda razão era o nosso tema: creative labels, que buscava ampliar a forma como percebemos carreira dentro do universo do design. Sabemos que a construção profissional não se dá mais de forma linear, o que possibilita que cada uma se aproxime mais de projetos e especialidades que conversam com suas identidades. Porém, ter muitas opções pode limitar algumas pessoas a ficar em zonas de conforto enquanto outras se sentem mais livres para experimentar.

 

Para que nossa noite pudesse ser ainda melhor, contamos com marcas parceiras que apoiaram nosso encontro e permitiram que nosso foco estivesse apenas nas trocas. Começando pelo espaço, quem nos recebeu foi a Área 51, complexo arquitetônico na Lucas de Oliveira que possui coworking, salas comerciais e espaços para eventos. O pessoal nos deixou super à vontade para que nosso evento pudesse ser mais intimista, oferecendo toda a estrutura de som, vídeo e refrigeração para nossas bebidas.

O vinho ficou por conta da Vinícola Salton, que nos enviou, também, taças personalizadas da marca. Bebemos um Pinot Noir, leve e fácil de apreciar, que combinou muito bem com um dia mais quente. Começamos as harmonizações com os muffins deliciosos do Josephyna’s, bar de drinks que fica na João Telles e que nos enviou seus doces para abrir nosso happy hour.

Enquanto isso, o pessoal da Brizza finalizava suas pizzas que logo chegariam para tornar nossa noite completa, com opções veganas, vegetarianas e com carne. A gente não sabia o que comer primeiro de tanta felicidade por termos marcas locais tão maravilhosas <3

Abrimos os trabalhos com a Renata nos contando um pouco sobre sua trajetória profissional através do seu site, onde encontramos exemplos dos seus trabalhos mais significativos. Logo percebemos como ela não se prende a materiais. Conforme a curiosidade e inspiração a tocavam,  ia desbravando novas formas de se expressar através de superfícies e cores.

Ela nos contou que se reconectou com o design quando voltou a ver alguns de seus desenhos de quando era criança e percebeu que tinha “trabalhos criativos para pisar.” Começou fazendo tapetes e em meio à crise precisou ampliar seu mix de serviços. Conversando com um amigo se deu conta que as cores sempre fizeram parte de sua vida e que tinha experiência suficiente para ser consultora.

Projetos entravam e saiam, mistos de desejos próprios com briefings de clientes. Desejava fazer uma calçada e teve essa oportunidade trabalhando com o Café do Porto. Mesmo assim, os tapetes nunca ficaram distantes de seu studio.

Sempre em busca de novas formas de acessar sua criatividade e testar seus limites, Renata se inscrevia em concursos que tivessem uma banca respeitada para se aventurar em novos mundos. Mesmo recebendo muitas críticas de seus colegas, ela não dava muito importância para o que os outros pensavam dela. O mais importante era o seu trabalho.

“Eu sou muito tímida. O que fala é o meu trabalho. Quem está nos lugares não sou eu, é o que eu faço. Eu entro em contato com as marcas, divulgo o que eu produzo, mando para outros países publicarem. Se um não quiser vou para o próximo.”

Em sua trajetória Renata trabalhou com porcelana, tecido, estampa, madeira e pedra – material não é um problema. Escreveu livros, ganhou prêmios e hoje dá aula. Quando perguntamos a ela o que mudou depois de ganhar o maior prêmio do design – o iF Design Award – ela afirma que não houve grandes transformações. Os clientes não passaram a buscá-la mais por causa do prêmio. Ela precisou seguir se posicionando no mercado e divulgando o seu trabalho como sempre.

Renata acredita que trabalhar com design é ouvir sua própria vocação. Por mais que se melhore técnicas e se aprenda novas formas de fazer, o que sentimos ao trabalhar com algo que gostamos está conectado com o nosso interior e não exterior. Por essa razão, percebe que a questão não é ter um dom, mas sim dar voz àquilo que temos potencial para ser.  

Abrimos a conversa com as demais participantes e entramos nas formas como as mulheres se sentem no mercado de design. Algumas das profissionais presentes afirmaram que já sentiram uma diferença de respeito no tratamento entre homens e mulheres. Trabalhar com uma pessoa que se declara do sexo feminino para alguns profissionais é um ponto fraco: não merecemos ser tão valorizadas ou receber as mesmas oportunidades pela nossa identidade de gênero.

Nesse cenário, se formos uma pessoa mais tímida, insegura com nosso próprio trabalho, as dificuldades tomam proporções muito maiores. E nisso a Renata nos inspirou nesta noite, pois para ela não tem espaço onde ela considera que não possa estar. Inclusive, sugeriu para as participantes que elas divulgassem os seus trabalhos, colocassem na rua o que produzem e compartilhassem nas redes sociais que mais usam.

Ter um portfólio que apresenta a pluralidade do profissional não é ponto negativo para Renata. Gostar de vários materiais e estar aberta para testar possibilita que a designer se aproxime do que mais gosta de fazer – algo que não pode ser esquecido.

Por mais que ouçamos cada vez mais que carreiras não existem mais naquele modelo tradicional e linear no mercado criativo, para quem cresceu aprendendo tudo nesse formato é uma mudança de mindset. Manter-se criativa, inovadora e conectada com sua essência é o paradigma dos profissionais do século XXI.

Nós não temos respostas sobre caminhos profissionais, mas podemos concluir depois desse encontro que é importante estar aberta para experimentar, falhar e tentar de novo de um jeito diferente. Querendo ou não, a gente aprende fazendo e avaliando depois o que deu certo e errado. No seu tempo e nas áreas que fazem sentido, vamos construíndo o que para cada uma é ser designer.

 

Abaixo compartilhamos algumas referências que surgiram no nosso encontro e as fotos que mostram um pouco de como foi a noite 🙂

+ Livro Big Magic de Elizabeth Gilbert

+ Ted Talk da Elizabeth Gilbert – Alimentando a criatividade

 

Design que transforma – Ladies, Wine and Design

Começamos a segunda temporada de encontros do Ladies, Wine and Design de um jeito que a gente adora: falando de mudança.

O primeiro evento foi sobre Design que Transforma, tendo como convidada a designer e diretora da agência CDA Design, Daniela Nunes. Para entrarmos no clima, fomos recebidas pela Dani na área externa da sede da empresa com direito a barulhinho de chuva.

Tornando nosso encontro ainda mais delicioso, contamos com parceiros locais. Para relaxarmos depois de um dia de trabalho, a Casa Perini nos enviou um cabernet sauvignon do projeto da marca chamada Solidário, onde parte da arrecadação é doada para o IMAMA e a Federação Brasileira de Hemofilia.

Como não se faz um encontro só com vinho, estávamos em ótima companhia com as empanadas vegetarianas do Yami Café, uma cafeteria vizinha do Bom Fim e que é um ótimo lugar para trabalhar. Para adoçar a noite, contamos com os mini brownies da By Aura, que trabalha com o chamado “soft brownies”. Podemos confirmar que eles eram realmente fofos e deliciosos!

Nossa conversa começou com a apresentação da Daniela, nos contando um pouco do seu caminho profissional, especialmente através da criação da CDA há 24 anos atrás. Uma curiosidade sobre a agência: ela começou com dois casais de namorados que queriam fazer diferente dentro do universo do design, sendo um deles a Dani e o Átila, casados e trabalhando juntos até hoje. Comentamos que essa era pauta para outra noite, pois há muito o que se falar quando sócio e marido são a mesma pessoa.

Entrando no nosso tema, Design que Transforma, a Dani iniciou falando sobre seu olhar positivo para com a vida, buscando sempre formas de melhorar a realidade. Nos trouxe alguns dados históricos sobre a evolução da humanidade e como grandes feitos tiveram a influência de corporações.

Através da experiência que possui em branding, somada à possibilidade de conhecer mais a história de seus clientes, Dani busca cruzar o momento atual ao propósito da marca. Foi surpreendente ver o trabalho realizado pela CDA, especialmente com clientes mais convencionais, onde muitas vezes se pensa não haver espaço para transformar de dentro para fora.

Por outro lado, esse foi um dos encontros do Ladies que mais geraram dúvidas e questões sobre o mundo do design. Falando sobre sustentabilidade, como fica esse braço do mercado criativo que tem como um dos seus pontos fortes o desenvolvimento de produtos? A Dani avisou que iria compartilhar várias de suas incertezas e que nenhuma delas havia respostas prontas.

Segundo as informações que ela compartilhou, consumimos 30% a mais do que o planeta dispõe. A vida está se tornando cada vez mais imprópria para muitos seres na terra. E nós, seres humanos, o que estamos fazendo para mudar essa realidade?

Para refletirmos melhor sobre tudo isso, a Dani trouxe a relação entre ecologia x economia, que é implementada pelo capitalismo. A palavra ecologia vem de “eco” = casa e “logia” = conhecimento. Em economia, “nomia” significa gerenciamento.

Partindo desse olhar, percebemos que, na verdade, as duas ciências estão mais conectadas do que imaginamos. Porém, como por muitos anos o homem se focou em obter lucro em um curto prazo, o tempo que se precisava para conhecer o meio ambiente e ver a melhor forma de interagir com ele foi deixado de lado. E agora nos encontramos com uma dívida enorme.

Como podemos equilibrar essa relação entre o homem e a natureza?

Uma das formas seria gerenciando melhor nossas matérias primas, indo atrás da fusão entre ecologia + economia. Precisamos de conhecimento para gerenciar qualquer negócio.

Pensando no tempo em que a sabedoria leva para chegar às pessoas, Dani entrou rapidamente no tema da maternidade e em como os filhos também ensinam os pais. Um exemplo prático aplicado há 15 anos atrás: o brasileiro não costumava separar o lixo. Com os filhos na escola, as pautas sobre sustentabilidade já eram ensinadas e reproduzidas em muitas casas – algo que aconteceu no lar da nossa convidada.

“As novas gerações tem mais consciência, o que se reflete no consumo. Dispostos a pagar mais por produtos que conversam com seus valores, os jovens ensinam seus pais sobre o que e como comprar” – afirma Daniela.

A partir da sua experiência com marcas que estavam abertas a se reconectarem com seus propósitos, Dani considera o papel importante do branding sustentável na motivação tanto dos donos quanto dos funcionários. Dentro desse universo, o design possui o papel fundamental de interpretar e tangibilizar esse posicionamento.

Trazendo um pouco para a realidade do mercado gaúcho, percebe-se um esforço enorme na hora de investir em máquinas e uma atenção muito menor quando o assunto é branding e embalagens. Consideramos importante que as pessoas percebam o potencial do design em transformar e movimentar revoluções.

Outro ponto importante é reconhecermos as profissionais que trabalham localmente. Em muitos casos, quando as marcas percebem a importância do design, elas buscam por nomes fora do estado. Dentro do Ladies, nós reconhecemos o quão primordial é fomentar os negócios e as mulheres que realizam em Porto Alegre. Mesmo que em alguns momentos possa parecer mais fácil acionar alguém fora daqui, se não estimularmos os serviços da cidade a nossa economia não irá crescer.

E se você está precisando de alguma recomendação ou não conhece nenhuma designer na cidade, no nosso site listamos todas as profissionais que já passaram pelos nossos encontros. Opções não faltam.

Fechando nossa conversa, trocamos algumas referências de marcas, projetos, livros e documentários que de alguma forma nos tocaram nos últimos tempos e estão relacionados ao tema de transformações, sustentabilidade, capitalismo e diversidade:

1. The Upcycle: Beyond Sustainability – Designing for Abundance

2. Documentário da Netflix – Dirty Money

3. A marca Patagônia e seu marketing sustentável

4. The Global Goals – ONU

5. Documentário da Netflix- O Invasor Americano

6. Livro da Djamila Ribeiro – O que é lugar de fala?

7. Projeto Mulher em Construção

8. Livro de E. F. Schumacher – Small Is Beautiful

9. Indique uma mina – rede de indicação para trabalho entre mulheres

Achou nosso encontro interessante e gostaria de saber como participar dos próximos? Estas e outras informações estão disponíveis no nosso Instagram – @lwd.poa.

Esperamos te encontrar!

 

Ladies, Wine, Design and Portfólio

Nosso terceiro encontro do Ladies estava em ritmo de festa mesmo antes de começar. Como esse seria o evento que fecharia a nossa primeira temporada, estávamos sentindo – além da empolgação de ter novamente a oportunidade de conhecer mulheres maravilhosas – uma sensação de gratidão por tudo que experienciamos através desse projeto.

Me sinto muito feliz em poder promover esses encontros de e para mulheres, pois é muito aconchegante poder estar entre iguais em um ambiente preparado para trocas. Por mais que muitas de nós tenhamos uma vida de “eu-presa”, com dúvidas que muitas vezes sentimos vergonha de externalizar, esses encontros comprovaram algo muito especial: que não estamos sozinhas.

E nada melhor do que aproveitar esse clima de união para falar sobre portfólio – sem julgamentos, apenas com um olhar curioso e carinhoso. Chegou a hora de nos encontrarmos para sermos vulneráveis juntas e, olha só que maravilha, sair desse dia nos sentindo mais confiantes sobre nossos trabalhos.


Nosso encontro não teria acontecido se não fosse pela união de forças externas. Quem nos recebeu com seu espaço que dá vontade de voltar todos-os-dias foi o Agulha, um misto de casa de show / bar / espaço para eventos. Para manter a mulherada animada, contamos com a super presença da Chandon e seu espumante maravilhoso Passion. E, para não perdermos o foco das conversas, estávamos acompanhadas dos brownies de-li-ci-o-sos do Cadô Brownie e os pães veganos da Estalo.

A nossa convidada do encontro foi a diretora da Sweety and Co., mãe e designer, Isabela Rodrigues, que nos trouxe o ponto de vista de uma profissional que começou como freelancer e em meio a muitas demandas, decidiu abrir um studio para conseguir dar um suporte maior aos clientes.

Ela nos contou um pouco sobre como foi criar sua marca e como percebe um movimento de clientes indo em busca de mulheres na liderança de projetos por entenderem a importância do olhar feminino. Tendo a oportunidade de trabalhar com marcas que reconhecem o potencial desse perfil, a Sweet hoje tem grande parte de suas vendas através de seu portfólio: os clientes olham o site, se apaixonam e decidem que querem fazer parte do grupo.

Reconhecendo a importância de um portfólio atualizado, Isabela conta que já receberam propostas de projetos que duravam vários meses – o que fazia com que a empresa ficasse muito tempo dedicada a um cliente e sem produzir trabalhos que pudessem ser divulgados. Consciente de que esses projetos não traziam benefícios para a equipe – que ficava desgastada e desmotivada por estar muito tempo com o mesmo cliente –  decidiram que não iriam pegar projetos fixos ou muito longos.

Claro que sempre poderão haver exceções, especialmente para clientes com quem a marca se identifica. Mas quando o portfólio se torna, também, uma ferramenta de prospecção e conversão de clientes, tê-lo atualizado e vivo acaba sendo uma estratégia de sobrevivência do negócio.

As designers sabem da importância do portfólio, mas no encontro ficou claro que muitas custam para conseguir atualiza-lo e sentem que ele nunca está bom o suficiente. Além disso, algumas sofrem com o caso de grandes ideias não irem para a rua por alterações de clientes, escolhendo publicar apenas o que foi aprovado e era menos interessante. Nessa discussão encontramos um dilema: de um lado aquelas que acreditam ser melhor compartilhar o que foi decidido pelo cliente x mostrar para o mundo o seu lado criativo.

Independente do lado que você esteja nessa equação, acredito ser importante lembrar qual é o objetivo do portfólio. Ele está ali para representar de uma forma gráfica o que a designer produziu no seu trabalho e não as decisões dos clientes – que muitas vezes são guiadas por estratégias e não estética. Dessa forma, considero que seria mais interessante compartilhar linhas criativas que condizem com o trabalho da designer, claro, depois de perguntar se o cliente ficaria confortável com a divulgação de um material que não foi aprovado.

Por outro lado, para aquelas que tem muitas dúvidas sobre como escolher os projetos para compartilhar, Isabela traz o tempo como um aliado nessa questão:

“É preferível que tu tenha um projeto no teu portfólio que tu passou 5 horas produzindo para publicar do que vários trabalhos médios.”

Muito bem, mas como chegar nesses trabalhos que te dão orgulho de mostrar por ai?

Tudo começa com o briefing. Isabela comenta que ter muita liberdade pode ser um problema para a designer, pois é fundamental saber ao menos o que o cliente não quer. E, com o tempo, afirma que a confiança no próprio trabalho se torna um aliado do processo.

Uma das participantes, a Ana Maria Copetti, trouxe uma questão muito interessante sobre como apresentar seu trabalho se ele for de design estratégico. Levando em consideração que o Behance funciona muito bem para materiais visuais, Isabela trouxe duas sugestões: traduzir a informação das metodologias e processos para um formato visual ou criar um site próprio, fora do Behance, onde tu possa desenvolver sobre os teus processos.

O design das mulheres gaúchas é tão bom que deu vontade de passarmos horas abrindo cada projeto e discorrendo sobre eles. Ver todos os sites apresentados – e que nós listamos abaixo para quem quiser ver mais – nos fez perceber novamente o quão especiais são esses encontros.

E para as perfeccionistas, a frase clichê “melhor feito do que perfeito” pode ser um bom mantra quando o assunto for portfólio. Enquanto seu trabalho estiver guardado nas pastas do desktop ninguém vai conhecer todo o seu potencial. Deixa de lado o medo. Estamos nessa juntas!

+ Isabela Rodriguez 

+ Paula Langie

+ Carol D’Ávila

+ Flavia Hocevar

+ Cristiane Hahner

+ Florencia Rodríguez

+ Karen Ferraz

+ Ana Paula Zonta

+ Ana Maria Copetti

+ Julia Accorsi

+ Gabriela Rigatti

Iremos fazer uma pausa no começo do ano, mas em março voltamos com a segunda temporada dos encontros. Para saber mais sobre a nossa agenda, temas e convidadas basta acessar o site: ladieswinedesign.com/poa/.

Até 2018!

Ladies, Wine, Design and Business

O segundo encontro do Ladies, Wine and Design foi sobre um tema que gera muitas questões quando se é mulher: negócios. Afirmo isso porque, como conversamos no grupo, ao se nascer do gênero feminino muitos são os caminhos pré-definidos socialmente.

Mas como a deusa Simone de Beauvoir afirmou – “não se nasce mulher, torna-se” – nós podemos escolher todos os dias quem queremos ser. Dona de casa, mãe, autônoma, freelancer, empreendedora, funcionária, muitas são as opções hoje quando o assunto é trabalho. Ainda mais vivendo na era da internet, nós podemos criar novos negócios e ir desenvolvendo as profissionais que desejamos ser.

Falando sobre o nosso encontro, o papo não teve muitas pausas, porque tínhamos bastante o que conversar. Quem nos recebeu nesse encontro e, também, serviu comidinhas deliciosas para dar combustível às discussões foi o Vidal Mercearia + café – um lugar muito charmosinho que só trabalha com matérias primas orgânicas. Além disso, aproveitando o dia quente que fazia, brindamos esse momento com os espumantes da Vinhética, uma marca que possui uma produção sustentável.

Para dar um norte ao nosso encontro, convidamos a designer-mãe-gravidíssima-mulher-de-negócios Roberta Hentschke, diretora da Bora Design de Negócios. Como não existe separação entre profissional e pessoal, ela nos contou um pouco sobre a sua caminhada que sempre cruzava esses dois mundos. Com uma filha pequena e outro perto de conhecer o mundo, tivemos a oportunidade de olhar para mais esse desafio das mulheres modernas: ser mãe.

Ao tomarmos para nós todas essas responsabilidades – casa, família, amigos, negócios – buscamos ser as melhores, algo que na prática vamos aprendendo não ser possível em todas essas esferas. As fotos do Google de mulheres com terninhos, amamentando, bem lindas, maquiadas, sem nenhuma olheira, só existem nesse imaginário construído para não nos identificarmos. Ser todas essas mulheres é escolher diariamente quais são as prioridades e, para Roberta, ser mãe é uma delas.

Quando teve a primeira filha, decidiu que não iria mais trabalhar de manhã. Queria estar presente na vida desse novo serzinho, mesmo sabendo que poderia ganhar menos dinheiro por não trabalhar horas sem fim por dia. Antes de tomar essa decisão, sentia-se sem equilíbrio, pois estava sempre buscando se superar entre as demandas da vida. Ao parar para se ouvir e entender o que era importante, percebeu que precisava priorizar a filha naquele momento.

Mas como nós não podemos viver de luz, ser apenas mãe quando se tem uma força empreendedora dentro do corpo te chamando para a luta – e os boletos entrando pela caixa de correio – logo precisa-se voltar para o trabalho, o que faz com que as nossas prioridades se misturem com as dos clientes.

E, bem, como muitas de vocês sabem, ser uma mulher de negócios não é fácil. Uma das participantes do encontro nos trouxe um pouco sobre a sua experiência de ter uma marca de cerâmicas, a Alma. Trabalhar nesse universo handmade, com força braçal e tendo que se relacionar muito com fornecedores homens é bem complicado.

Marina Carvalho nos conta das vezes que já foi em ferragens ou até comprar alguma matéria prima para o seu trabalho e não foi ouvida. Mesmo chegando nas lojas tendo conhecimento sobre o que precisava, os atendentes não a levavam a sério, achando que ela não sabia nada sobre o negócio no qual decidiu colocar sua energia.

“Tu precisa provar o tempo todo quem tu é e o quanto tu sabe.”

Cristiane Hahner nos trouxe outro exemplo de como é difícil ser mulher no mundo dos negócios. Trabalhando como designer em uma indústria, conta sobre as vezes em que foi em reuniões com clientes e estes não lhe dirigiram a palavra. Afirma que houve situações em que as pessoas entravam na sala, cumprimentavam o colega do lado dela e a ignoravam completamente.

Em meio a tantas dificuldades é uma escolha diária ser uma mulher empreendedora. Os negócios em modelos tradicionais não foram desenhados para respeitar metade da população – no caso do Brasil, as mulheres representam 51,4%. Além disso, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, “nós vivemos mais, estamos tendo menos filhos, ocupando cada vez mais espaço no mercado de trabalho e, atualmente, somos responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias.

Com tantos entraves para trabalhar, uma das soluções que as brasileiras encontraram foi abrir o próprio negócio. Segundo o levantamento da Global Enterpreneurship Monitor (GEM), em 2014, 51,2% dos empreendedores que iniciaram negócios eram mulheres. A estimativa do Sebrae é de que já ocupamos 43,2% dos cargos de gerência em micro e pequenas empresas.

E conforme indicam as pesquisa somos muito boas no que fazemos. Ainda de acordo com o Sebrae, na última década, 54% das empreendedoras mantiveram suas empresas em atividade mais de cinco anos – tempo que se projeta para entender se a marca tem como ser sustentável.

Esses dados confirmam outra fala de Roberta, sobre as mulheres estarem mais abertas a experimentar nos negócios. Em um misto de se manter financeiramente, coragem e busca por identificação, as profissionais vão se aventurando em diversos segmentos. Desde uma pequena marca de brigadeiro até uma das maiores lojas varejistas do Brasil – Magazine Luiza – a cada dia criamos novas formas de nos encontrar e posicionar no mercado.

Mesmo tendo muito glamour ao redor do empreendedorismo feminino, os primeiros passos não são fáceis. Laura Madalosso, uma das sócias da marca Insecta Shoes, traz a equação preço justo x conseguir manter o negócio. No começo, mesmo sabendo quanto custa para produzir o teu produto – dependendo de como se encontra a situação econômica das pessoas – aquelas que se identificam com o que tu vende podem não ter como pagar. Logo, tu precisa rever como se posicionar no mercado, o que pode comprometer os lucros por um tempo.

Mesmo se questionando todos os dias, nas ondas de entra e sai dinheiro, precisamos encontrar forças em nós mesmas para lembrarmos porque escolhemos criar uma marca e o caminho que nos levou até esse momento.

Sem falar na importância de poder contar com amigas e pessoas que estão na mesma aventura empreendedora. Trocar, conversar e entender que tu pode estar fazendo tudo certo mas que haverá dias em que tu não irá vender é difícil de compreender. Porém, quando tu decide pedir ajuda ou até mesmo abrir o coração, o universo te manda um braço a mais para dar os próximos passos.

Outro exercício que ajuda nas horas de baixa é ter boas referências de liderança feminina . Como somos educadas a partir de modelos de gestão masculinas, grande parte das características femininas de negócios são negligenciadas. Sendo assim, precisamos de mentoras e profissionais que fazem de um jeito novo para nos espelharmos e inspirarmos.

Um exemplo que foi trazido no encontro foi a analogia da figura da Rainha Elizabeth II, presente na série The Crown. Quem já assistiu aos episódios percebe as tentativas fracassadas da jovem mulher em ter uma gestão mais coerente com a sua verdade. Porém, não estamos mais nos anos 50 onde não tínhamos com quem andar juntas quando o assunto era liderança feminina. Olhem para o lado e apoiem umas às outras.

No mais, como disse Roberta: “medita e aproveita o processo.” Tudo vai dar certo e quando não der, saiba que pode contar com as ladies aqui. Sigamos juntas <3

p.s: Esse ano teremos mais um encontro em dezembro, então fiquem ligadas no nosso Instagram – @lwd.poa – que iremos informar tudo por lá 🙂