Ladies, Wine and Design – sobre ser mulher, criativa e gaúcha

Ladies, Wine and Design, para quem não conhece ainda, começou em Nova Iorque pela mente brilhante de Jessica Walsh, sócia e designer da famosa Sagmeister & Walsh. Ao perceber o baixo número de mulheres em cargos de liderança nos studios de design, resolveu promover encontros entre profissionais na sua casa para conversar sobre trabalho e vida, sempre na companhia de uma boa taça de vinho.

Por mais incrível que possa parecer, essa falta de oportunidade para mulheres no meio criativo é algo muito presente em diversas partes do mundo. Até o momento, 120 cidades, para ser mais exata, já receberam o LWD.

No Brasil, apenas 3% das mulheres estão em cargos de liderança na indústria criativa, porcentagem que nós queremos aumentar. Por essa razão e por reconhecermos as peculiaridades do mercado gaúcho, decidimos, em parceria com a Néktar Design, trazer esses encontros para o sul do país. Em território nacional, eles já acontecem em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Para experimentar o clima de casa, formato no qual os encontros começaram em NY, fomos recebidas no terraço delícia da Néktar. Após inscrições disputadas, as 10 mulheres mais rápidas nos encontraram para falar sobre Design Autoral, papo facilitado pela designer Paula Langie.

Tornando o nosso evento ainda melhor, tivemos a companhia de marcas que nos apoiaram com o que elas tem de melhor: seus produtos. Nas comidinhas, o Mantra Restaurante nos enviou a suas gostosas samosas veganas, que combinaram muito bem com os fofíssimos mini cupcakes da Baunilha Cupcakes. Harmonizando nosso happy hour, contamos com a presença da Vinícola Guatambu, uma das poucas marcas do estado que é administrada por mulheres.

Falando em mulheres, eu já havia imaginado que o encontro fosse falar sobre questões além de trabalho, até mesmo porque não existe separação entre eu-pessoa e eu-profissional.

O que eu buscava no Ladies, e que considero bem difícil de encontrar, era um espaço para falar sobre trabalho sem sentir julgamentos e competitividade – e sim acolhimento e força. Quando se fala sobre o tema é muito fácil entrar em disputas de ego, sobre quem é melhor ou maior do que o outro, algo que não torna as conversas significativas.

Ser vulnerável é um dos grandes aprendizados que estamos passando como mulheres nos últimos tempos, acordando todos os dias e nos esforçando para se permitir acessar nossos lados femininos. Estar em um lugar com outras mulheres em outros tempos poderia significar opressão, pois muitas de nós, ainda que inconscientemente, reproduzimos comportamentos machistas. Porém, não foi isso que encontrei no Ladies, Wine and Design. Mesmo com muito para se debater, a problematização de padrões foi um assunto presente na pauta, independente do que estivéssemos discutindo.

Ser mulher e trabalhar com design não é muito fácil, ainda mais se pensarmos no contexto das agências de publicidade. Como algumas profissionais comentaram, muitas ainda funcionam no modelo Mad Men, onde a área criativa possui em sua maioria homens – brancos, heterossexuais e de classe média/alta.

Dentro desse modelo, assédio, machismo e desvalorização fazem parte do dia a dia. A masculinização de profissionais criativas – que por não terem espaço para expor suas opiniões, mesmo quando seus trabalhos estão sendo apresentados – acaba sendo desenvolvida como uma forma de se defender de tais adversidades.

Entrando no tema do encontro, Design Autoral, Paula nos contou como foi o processo por trás do projeto “365 dias para uma década”. Neste, o escritório fez uma contagem usando flores todos os dias até chegar na data de aniversário de 10 anos da empresa. Esse projeto rendeu um IF Design Award em 2016, além do conhecimento imenso sobre as flores presentes no sul do país.

Começamos a conversar sobre projetos autorais e paralelos, que as designers presentes realizavam ou tinham desejo de começar, o que revelou o fato de algumas estarem se sentindo sugadas pelas 8 horas de trabalho. Essas jornadas muitas vezes se estendem para além do horário e finais de semana, o que torna compreensível o fato de não terem muito tempo para fazer planos.

Aquelas que já se libertaram do horário fixo e se tornaram freelancers conseguem ter mais liberdade tanto para realizar projetos que tenham mais a sua cara quanto para pensar no que poderiam fazer além deles. Mas se engana quem pensa que é tudo uma maravilha desse lado dos negócios. Há uma demanda que quem tem carteira assinada dificilmente conhece, que é a relação com os clientes. Estar disponível, cumprir alguns prazos apertados e se manter sempre em movimento para conseguir os próximos trabalhos são algumas das responsabilidades de ser uma “eu-presa”.

Em meio a todas essas pautas, existe ainda o bendito portfólio, que, segundo Camila Andrade, “é o pior job de um designer”. Ele nunca está atualizado. Sempre tem um novo trabalho para ser incluído que acaba ficando pra depois, momento que dificilmente chega. Algumas designers, inclusive, nem tem esse material organizado.

Quando se pensa no dia a dia das designers, se percebe a importância do grupo nos espaços de trabalho. Ter alguém por perto para trocar referências, conversar sobre filmes, séries, vida, torna os momentos de pauta apertada menos estressantes. Por mais que seja difícil encontrar nas empresas várias mulheres trabalhando na criação, poder contar com a opinião de amigas antes de uma entrega ajuda a não se sentir tão sozinha – ainda mais para as profissionais que são home office.

Se sentir segura com relação ao trabalho também é uma questão complexa no design, pois muitas sofrem com a síndrome do impostor. Possuem dúvida sobre até que ponto suas entregas são boas, se realmente mereciam estar nas posições que ocupam, o que gera ansiedade e medo de serem descobertas em suas inseguranças.

Por outro lado, as profissionais que estão deixando a hesitação de lado nos revelaram como se posicionam em ambientes masculinizados. Uma das participantes contou que quando estava em reuniões para apresentar os resultados dos seus projetos, os demais colegas não a deixavam falar. Então, ela mudou a forma como se colocava nesses momentos e começou a pronunciar mais a voz, se fazendo ser ouvida.

Outra história bem legal foi de uma das designers que trabalha dentro do cliente, em desenvolvimento de produtos para a indústria. Percebendo a importância de entender os processos de produção para criar produtos que fizessem sentido na cadeia, começou a realizar visitas à fábrica para entender como melhorar seus resultados. No começo não foi fácil ser a única mulher naquele ambiente, mas aos poucos os colegas foram entendendo que ela estava focada no seu objetivo de ser muito boa no seu trabalho.

Ao abrirmos nossas referências, além de filmes e livros, o que andou pelos ouvidos das designers do primeiro encontro foram os podcasts. Como eu adoro uma boa indicação, resolvi trazer aqui os nomes citados:

Mamilos – acompanhado da frase “vocês PRECISAM conhecer, especialmente o que fala sobre Mulheres, Dinheiro e Independência. Áudio obrigatório que pode ser acessado, também, pelo Spotify.

Naruhodo – sobre curiosidades da vida.

+ Gorda – especialmente sobre filmes e séries

+ Fronteiras da Ciência – podcast produzido pela UFRGS, que busca falar sobre como funciona a ciência com uma linguagem acessível. Pode ser ouvido, também, através do aplicativo para Android.

+ Heroine – inclui esse porque estou apaixonada por ele. É em inglês, mas não é com um vocabulário complicado e busca compartilhar histórias reais, profundas e significativas de grandes líderes criativas sobre suas jornadas profissionais e pessoais <3

Só pra ti sentir mais um pouco como foi nosso encontro, algumas fotinhos que mostram a energia que trocamos nesse dia.

Aqui está a nossa agenda e qualquer dúvida pode nos enviar um e-mail para lwd.poa@gmail.com. Espero te encontrar nos próximos 🙂

Ser Freelancer – por Fernanda Obregon | São Paulo

Chegou nossa última entrevista da série Ser Freelancer.

Acreditamos que contar um pouco pra você como foi a trajetória de Fernanda Obregon, e como ela trabalha hoje, é fechar esse etapa com chave de ouro.

Gaúcha de Santo Ângelo, se formou em Publicidade na Universidade de Caxias do Sul, mas sua vida profissional começou bem antes, ainda aos 16 anos. Deu aulas de inglês por um bom tempo, depois foi assistente do cartunista Iotti e trabalhou com planejamento na agência Duplo M. Nesse meio tempo conheceu a Box1824 e se apaixonou. Montou um currículo para fisgar a atenção deles e em seguida, a chamaram para sua primeira entrevista. Entretanto, não era para a vaga que de fato tinha interesse, resolveu então esperar por uma outra oportunidade surgir – e surgiu.

Nos fala com certeza: Cada passo que deu neste caminho foi importante para formar a pesquisadora que é – e lá se vão 7 anos nessa área.

“Lá no Iotti, já meio entediada com o que eu fazia, eu comecei a ler e descobri a Box. Então, eu comecei a estudar muito, o que era pesquisa, o que eles faziam, o que era pesquisa de tendências,  e ai, antes de entrar pra Duplo M, eu já sabia tudo da Box. Quando eu fui entrevistada pelo Marcelo, ele já sacou ali a minha vontade, sabe? E depois de um ano trabalhando com ele, eu recebi a proposta da Box e fui conversar com ele. Marcelo me disse: “Fernanda, a Box é uma das poucas empresas que eu deixaria você ir.”

“Lá no Iotti, já meio entediada com o que eu fazia, comecei a ler e descobri a Box. Então, eu comecei a estudar muito, o que era pesquisa, o que eles faziam, o que era pesquisa de tendências, e ai, antes de entrar pra Duplo M, eu já sabia tudo da Box. Quando eu fui entrevistada pelo Marcelo Lubisco, ele já sacou ali a minha vontade, sabe? E depois de um ano trabalhando com ele, eu recebi a proposta da Box e fui conversar com ele. Marcelo me disse: “Fernanda, a Box é uma das poucas empresas que eu deixaria você ir.”

A transição de Porto Alegre – São Paulo, profissionalmente falando foi bem suave, pois ela se mudou para trabalhar, acompanhando a migração da Box. Pensando no lado pessoal, considera que também foi tranquilo, pois estava se preparando há 6 meses. Além disso, acredita que o fato de ter ido com um emprego que lhe trazia segurança ajudou para que se sentisse mais confiante.

Já em 2008, fez projetos para Melissa, Fiat, e Pepsico. Para esta última, trabalhou junto com a Box em um painel online com os consumidores, para avaliá-los e fazer uma pesquisa mais dinâmica, se tornando o estudo pioneiro em pesquisa digital na época. Este case foi apresentado pela Carla Mayumi da Box no ESOMAR e mencionado como uma das metodologia de destaque daquele ano.

Com essa informação, a Box decidiu transformar esse projeto em uma empresa, porque já tinham novos clientes. Sendo assim, depois de Pepsico, veio Pepsi, C&A e Itaú – assim criou-se a Talk Inc. Lá dentro, trabalhou com relacionamento e criação de metodologias online, além de outras áreas da pesquisa. Após quase 6 anos, estava já em busca de outras oportunidades, quando aconteceu com ela o que muitas pessoas acham ser lenda urbana: Uma empresa encontrou seu perfil no Linkedin e entrou em contato.

“As pessoas sempre perguntam: “Como é que te acharam?” Primeiro, o meu perfil estava completo e em inglês. Por isso, a Tasha Space e o Mickey Barol, donos de uma consultoria estratégica para marcas me encontraram na sua busca. Eles queriam fazer um projeto sobre a cultura brasileira, então vieram para o brasil para procurar parceiros no ano retrasado e em junho eles me entrevistaram. Então, em janeiro do ano passado eu recebi uma proposta deles pra fazer esse projeto sobre cultura brasileira - esse projeto que era pra ser de 6 semanas, no fim eu fui pra lá e acabei trabalhando com eles 6 meses.”

“As pessoas sempre perguntam: “Como é que te acharam?” Primeiro, o meu perfil estava completo e em inglês. Por isso, a Tasha Space e o Mickey Barol, donos de uma consultoria estratégica para marcas, me encontraram na sua busca. Eles queriam fazer um projeto sobre a cultura brasileira, vieram para o brasil para procurar parceiros no ano retrasado e em junho eles me entrevistaram. Em janeiro do ano passado eu recebi uma proposta deles pra fazer esse projeto sobre cultura brasileira – esse trabalho que era pra ser de 6 semanas, no fim eu fui pra lá e acabei ficando com eles 6 meses.”

A CS Space, empresa em questão, segue sendo uma das quais Fernanda faz projetos freelancer, para clientes como Nike, Citibank e Comedy Central.  Na verdade, foi na volta ao Brasil que ela entrou para este mundo de profissional liberal: Nos conta que já sentida vontade de experimentar o formato dentro do mercado de pesquisa, pois ainda na Talk via seus amigos trabalhando assim e sentia que eles estavam circulando e se alimentando muito mais das novas dinâmicas. Paralelamente aos projetos, também estava tentando criar e entender qual é sua natureza dentro da pesquisa.

Quando retornou dos Estados Unidos, sentiu que precisava se situar no mercado, entender o momento, e por isso durante 6 meses  mergulhou nos estudos, para conhecer pessoas e novas metodologias. Na Perestroika frequentou as aulas do Mood (tendências), Da Lama ao Caos (vida em rede) e Inovação Social na Escola de Design Thinking.

“Quando eu voltei, fui trocar uma ideia com o Dudu Fraga, meu chefe por anos na Talk. A percepção dele era que o mercado de pesquisa tinha tido um boom de freelancers, e essas pessoas não estavam se diferenciando como marcas. Então todo mundo fazia a mesma coisa.”

“Quando eu voltei, fui trocar uma ideia com o Dudu Fraga, meu chefe por anos na Talk. A percepção dele era que o mercado de pesquisa tinha tido um boom de freelancers, e essas pessoas não estavam se diferenciando como marcas. Então todo mundo fazia a mesma coisa.”

Sentiu que dessa maneira, os contratantes começavam a nivelar todos os profissionais, mesmo alguns tendo mais experiência que os outros, oferecendo os mesmos projetos. No seu ponto de vista, dessa maneira o mercado não se desenvolveria, pois estavam todos querendo pegar a mesma fatia do bolo.

Pensou então, que deveria começar a se posicionar no mercado, e assim como outros freelancers, criar sua marca e abordagem. Após meses olhando para o mercado e entendendo o contexto, decidiu olhar para si, para sua história e compreender quais eram suas habilidades. Neste período introspectivo, se dedicou à hot yoga. “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda”, citando Jung.

"Eu tomei esse tempo para ter essa liberdade de descobertas, sabe? Isso consumiu muito da minha reserva. Mas eu acho que precisa ter um investimento na hora de se tornar freela, um investimento que você faz e que se paga. Eu passei por esta fase e aconselho aos novos freelancers, antes de mais nada, a estudarem o mercado, entenderem o seu papel dentro dele, saberem que existe sim, e que deve haver investimento, não só no estudo, mas no network que esses cursos trazem para você. Depois, você pode tomar um tempo para o autodescobrimento e ver como você pode cair na rede de uma forma mais inteligente, estratégica e fluida”.

“Eu tomei esse tempo para ter essa liberdade de descobertas, sabe? Isso consumiu muito da minha reserva. Mas eu acho que precisa ter um investimento na hora de se tornar freela, um investimento que você faz e que se paga. Eu passei por esta fase e aconselho aos novos freelancers, antes de mais nada, a estudarem o mercado, entenderem o seu papel dentro dele, saberem que existe sim, e que deve haver investimento, não só no estudo, mas no network que esses cursos trazem para você. Depois, você pode tomar um tempo para o autodescobrimento e ver como você pode cair na rede de uma forma mais inteligente, estratégica e fluida”.

No momento atual, ela está desenhando o seu portfólio baseada nas suas habilidades e paixões e decidiu levar para o mercado o seu lado artístico e criativo, que sempre esteve restrito nas brincadeiras com os amigos.  A pesquisa qualitativa, online ou offline, cultura,  inovação, design thinking, semiótica e psicanálise, teorias de redes, ensinar, bordado, inglês, yoga, tarot, cabala, figurinos e fantasias, coletivos. Todos estes elementos passam a se conectar no portfólio e se tornam o terreno de possibilidades para futuros trabalhos.

“Eu participei do Mermaid Parade em Coney Island no ano passado e fui felizona vestida de sereia. Não era parte do meu trabalho, mas ali, no meio de toda aquela festa eu tive um insight muito bom sobre diferenças da cultura americana para a brasileira. Foi aí que eu comecei a pensar que minha brincadeira com fantasias poderia ir para o lado profissional, criando experiências. Aí quando chegou o último trabalho de Nike, eu decidi fazer o desafio de 30 dias de yoga para entender como funciona a mente de um atleta. Era uma pesquisa enorme, em 11 capitais do mundo e eu também iria precisar da mente vazia para ler todo aquele conteúdo. Voltei a dar aulas de bordado e me diverte cruzar os aprendizados de uma área com a outra. “O que a yoga ensina para o bordado?” “Como seria o proceso de bordado através do Design Thinking?” “Como seria dar aula de pesquisa?”

“Eu participei do Mermaid Parade em Coney Island no ano passado e fui felizona vestida de sereia. Não era parte do meu trabalho, mas ali, no meio de toda aquela festa eu tive um insight muito bom sobre diferenças da cultura americana para a brasileira. Foi aí que eu comecei a pensar que minha brincadeira com fantasias poderia ir para o lado profissional, criando experiências. Aí quando chegou o último trabalho de Nike, eu decidi fazer o desafio de 30 dias de yoga para entender como funciona a mente de um atleta. Era uma pesquisa enorme, em 11 capitais do mundo e eu também iria precisar da mente vazia para ler todo aquele conteúdo. Voltei a dar aulas de bordado e me diverte cruzar os aprendizados de uma área com a outra. “O que a yoga ensina para o bordado?” “Como seria o proceso de bordado através do Design Thinking?” “Como seria dar aula de pesquisa?”

Com esta nova compreensão sobre si, pode escolher os projetos que acredita ou que sabe que tem mais conhecimento para realizar, prezando pela liberdade nas propostas que entrega para montar sua equipe da melhor forma – nessa fase está conhecendo vários profissionais de pesquisa para poder organizar e trabalhar em rede. “É o que se fala muito “Oh, trabalhamos em rede.” Como que é essa rede? Para mim, é a capacidade de criar grupos e pequenas empresas pra um projeto só, que depois se desfazem. Também com a mentalidade de coletivos.” – completa.

Quando trabalhava na Box, Fernanda teve uma época como home office. Sendo assim, aprendeu muito sobre como não se isolar. Conta perceber que, geralmente o que acontece entre quem trabalha em casa ou fora dela, é que no primeiro quando chega a noite, este quer sair e no segundo quer descansar. Agora sente estar em uma outra fase de sua vida, por morar em São Paulo e ter grande parte de seus amigos freelancers, há uma maior facilidade para seus encontros – adeus solidão.

Como incluiu na sua rotina o yoga, aproveita para alguns dias almoçar na rua. Percebe estar cozinhando muito mais para si mesma e que mudou toda a sua alimentação. Atualmente ela privilegia a alimentação vegetariana e os alimentos não-industrializados. Diz que não é xiita mas sim mais consciente das suas escolhas.

Trabalhando em casa ela está criando seu universo, seu canto, o que considera importante ter. Comenta que hoje tem mais liberdade, até mesmo para fazer algumas fugas. Por exemplo, se sabe que em dois dias terá projetos que irão exigir muito dela, consegue tirar antes uma tarde para descansar.

Conta que trabalho sempre tem. Para Fernanda as pausas entre projetos são oportunidades para o investimento próprio, através de estudos, almoços com profissionais do mercado, ou até refazendo sua página no Linkedin – cuidado que a levou a trabalhar com a americana CS Space.

Para que possa ter esses momentos de investimento pessoal, possui uma poupança que a ajuda. Fernanda equilibra o trabalho que presta para outras empresas e o serviço que faz para ela mesma, o que percebe ser a diferença do freelancer, que precisa investir muito em si.

A pesquisa a inspira muito. No processo de empatia durante os projetos é normal que Fernanda incorpore o target da pesquisa na busca de insights e de novos aprendizados.

"Sempre gostei de estudar auto-conhecimento pra ver como é que eu aplico isso em pesquisa. Em todos os meus projetos da Talk eu gostava de criar, dentro dos roteiros, das metodologias, perguntas e dinâmicas em que as pessoas pudessem descobrir algo a respeito delas, uma verdade no meio do processo. E eu pegava essa descoberta, fresca, no meio da pesquisa, e aplicava como insight. Percebo que essa busca pela lógica, pelo como as coisas funcionam está expandindo, não só no universo da pesquisa, mas em várias áreas e isso se torna conhecimento em uma era de transparência. Eu acho que a gente está saindo um pouco dessa fase de brincar com as coisas, para levá-las um pouco mais a sério e entender qual a relevância delas, como é que elas podem operar numa sociedade, numa cultura, que gere uma evolução. Esta é a brincadeira de muito coletivos, que acabam dando certo e viram novos negócios”

“Sempre gostei de estudar auto-conhecimento pra ver como é que eu aplico isso em pesquisa. Em todos os meus projetos da Talk eu gostava de criar, dentro dos roteiros, das metodologias, perguntas e dinâmicas em que as pessoas pudessem descobrir algo a respeito delas, uma verdade no meio do processo. E eu pegava essa descoberta, fresca, no meio da pesquisa, e aplicava como insight. Percebo que essa busca pela lógica, pelo como as coisas funcionam está expandindo, não só no universo da pesquisa, mas em várias áreas e isso se torna conhecimento em uma era de transparência. Eu acho que a gente está saindo um pouco dessa fase de brincar com as coisas, para levá-las um pouco mais a sério e entender qual a relevância delas, como é que elas podem operar numa sociedade, numa cultura, que gere uma evolução. Esta é a brincadeira de muito coletivos, que acabam dando certo e viram novos negócios.”

Ser freelancer | Mercado de pesquisa

Percebe existir uma parte do mercado de pesquisa, que está muito focada em fazer pesquisa e entregar resultados de um jeito que hoje são aplicáveis a um curto prazo e com menos estratégia. Existem profissionais que fazem trabalhos pensando apenas em um grupo de pessoas e não levam em consideração um contexto superior, onde há valores culturais emergentes e crescendo exponencialmente. Percebe que é aí onde se encontram os problemas de comunicação das marcas, pois as pessoas estão mudando a mentalidade e os comportamentos de forma muito rápida. “Estamos vivendo uma mudança de era e não uma era de mudanças” – afirma.

Acredita que as pessoas estejam percebendo o ser freelancer como algo positivo, divertido. Conta que os profissionais liberais brincam com a frase “caiu na rede”, pois há vários colegas da sua geração se tornando freelancers. Percebe como um movimento bem natural, pois muitos estão cansados de trabalhar em empresas, vivendo verdades de outras pessoas e corporações. Afirma que quando se é freelancer há a possibilidade de viver cada um a sua própria verdade, se conectando com aqueles que acreditam em coisas semelhantes. A rede é um processo e muitos estão indo por esse caminho.

Como já trabalhou em outros formatos, no ser freelancer sente que existem vantagens e desvantagens. Hoje, o principal benefício – e uma das principais razões que fazem as pessoas se tornarem profissionais liberais – é a liberdade, em relação a horários e projetos. Outra vantagem é ter tempo para dar mais energia aos seus projetos criativos e pró-ativos, que aos poucos estão se desenhando.

Se pudesse trazer uma dificuldade, brinca que foi se organizar para pagar as contas no início da transição e se ver como uma empresa. Hoje já encontrou um equilíbrio, pois aprendeu a administrar suas contas, a se valorizar e cobrar o que acha justo pelo seu trabalho.

“Eu estou aprendendo a fechar contratos e a cobrar. Cada pessoa ou empresa que me chama para projeto, é um sistema diferente e preciso ficar atento para prazos e pagamentos, pois tem trabalhos que atrasam e demoram e isso complica a agenda pois deixo de pegar outros. Então tu tem que saber colocar os seus limites, dar e mostrar o seu valor. "Eu acho que são questões que você lida consigo mesmo, de julgar, de cobrar. É preciso levar esse processo muito mais de aprender a fluir do que um processo de cobrança de alguma coisa"

“Eu estou aprendendo a fechar contratos e a cobrar. Cada pessoa ou empresa que me chama para projeto é um sistema diferente e preciso ficar atenta para prazos e pagamentos, pois tem trabalhos que atrasam, demoram e isso complica a agenda, pois deixo de pegar outros. Tu tem que saber colocar os seus limites, dar e mostrar o seu valor. Eu acho que são questões que você lida consigo mesmo, de julgar, de cobrar. É preciso levar esse processo muito mais de aprender a fluir do que um processo de cobrança de alguma coisa.”

Atualmente está começando a criar sua própria estrutura, em busca de uma maior pró-atividade. Percebe haver uma certa limitação na área de pesquisa, quando o assunto é portfólio. Como os projetos envolvem muito sigilo, especialmente com relação as etapas estratégicas, está agora se questionando sobre um formato que a permita divulgar suas experiências de uma forma ética. Um dos seus próximos passos é trazer para o Brasil o Business of Culture, a metodologia de pesquisa para estratégias culturais criada pela CS Space, na qual Fernanda também participa do grupo de estudos.

Acredita que o freelancer precisa se conhecer muito, saber realmente o que melhor faz e o que mais gosta de fazer. Aprender seria sua palavra chave. Conta que já contratou várias pessoas para trabalhar com ela, porque via nestas potencialidades que poderiam ser usadas na pesquisa, algumas dessas até que Fernanda não possuía e iria complementar o projeto. “A vontade de aprender que essas pessoas tem, o interesse, isso movimento tudo e faz o sucesso de um projeto” finaliza.

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Ser Freelancer – por Túlio Notini | São Paulo

Conversar com Túlio foi uma delícia, pois mesmo morando em São Paulo há 3 anos, seu sotaque mineiro continua com ele. De formação ele é Engenheiro de Produção e enquanto morava em Belo Horizonte, trabalhava em um fundo de seed money, com inovação, tecnologia e startups.

Decidido que queria mudar sua área de atuação e cidade, começou a se inscrever em vários trainees, pois acreditava que esse era o meio mais fácil e rápido para a transformação que queria. Passou em algumas e escolheu aquela que lhe parecia mais próxima do que estava buscando.

Optou pelo programa da Kraft e na hora de decidir por quais vagas iria concorrer – surpreendentemente, nesta ele poderia “escolher qualquer coisa”, não precisando ser relacionado a sua área de formação (diferente de outros processos de trainee que se inscreveu). Inicialmente sua primeira opção era marketing, pois Túlio acreditava que assim poderia trabalhar com algo mais criativo. Porém, sua “fada madrinha” estava ali, Nívia responsável pelo RH, com quem ele fala até hoje.

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“Nívia me olhou e disse: Túlio, eu vi que você escolheu marketing. Tem uma área aqui que chama consumer insights, que pelo que a gente já te conhece tem muito a ver com o seu perfil pessoal e profissional. Ai eu falei, “o que é isso?” – e ela me explicou: “É uma área que trabalha com marketing, pesquisa, conhecimento de consumidor e pessoas.” Ai eu falei que era aquilo que eu queria fazer. Marquei consumer insights em primeiro e marketing em segundo. Como era uma única vaga de consumer insights acabei passando.”

Durante o trainee na empresa – atualmente chamada Mondelez – trabalhou em duas diferentes áreas. No primeiro ano foi em Trends and Targets, onde era responsável por pesquisas para multicategorias, buscando entender comportamentos e alavancando o conhecimento sobre as categorias, principalmente em target. Depois foi para Gums & Candies, trabalhanso para Halls e Trident, ficando mais com a pesquisa relacionada a marketing e inovação.

Quando saiu do trainee ficou 3 meses em período sabático. Tinha vontade de trabalhar com algo criativo, talvez em alguma agência. Lembrou das três que mais o chamava atenção, CO.R, Naked e Peralta, onde nesta última conhecia e gostava do trabalho de Max Nolan Shen. Entrou em contato com ele para saber se tinha alguma vaga disponível, mas teve uma surpresa, este havia se desligado da empresa e estava abrindo uma consultoria para trabalhar com branding, pesquisa e planejamento. Perguntou então, a Túlio, se ele tinha interesse em participar desse projeto e a resposta foi sim, mesmo com nenhum job previsto para o momento. Um mês depois Max ligou para ele avisando que havia um projeto novo, e desde então trabalham juntos.

Da vontade de ter uma consultoria que trabalhasse de uma forma mais fluida, Túlio conta que Max começou a organizar a Dervish, rede de cultural hackers que trabalha sem verticalidade entre os colaboradores. Tudo por lá é horizontal, na base da confiança e compromisso, não há cobranças, é muito do que cada um está disposto a entregar e todos são freelancers.

Na prática afirma que funciona da seguinte maneira: Na Dervish há muito forte a questão de compartilhar tudo, inclusive conhecimentos, como por exemplo, se Túlio sabe muito sobre algo, fez um projeto que pode falar um pouco ou um curso, ele vai e apresenta para o grupo. Atualmente são 15 profissionais, todos podem e devem prospectar. Se aparecer algum projeto ou se alguém for chamado para fazer uma proposta, esta pessoa fica como “dona” desse job – não de forma hierárquica, apenas para organizar algumas etapas. O responsável passa para os colaboradores as informações que tem sobre o trabalho e quem tiver interesse se manifesta. O “dono do projeto” decide quem ele irá chamar, avaliando as características do job, como por exemplo, se ele precisa ser feito muito rápido, serão necessárias mais pessoas e se há necessidade de algum conhecimento específico. Além disso, não há uma obrigatoriedade, pode-se apenas participar da rede para trocar experiências e não fazer nenhum trabalho.

Dessa forma as equipes de trabalho são transitórias mas com pessoas conhecidas, porque os colaboradores mantém contato. Mais do que projetos, Túlio considera que a força da rede é a troca de conhecimentos que existem entre eles.

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“A gente tenta trazer projetos para rede, porque sabemos que quanto mais fizermos, mais vamos trabalhar, mais a rede vai viver, mais ela vai ficar conhecida e mais gente vai nos chamar para trabalhar. Acreditamos muito na abundância. Assim conseguimos ser muito rápidos e financeiramente competitivos, porque a gente não tem estrutura física de empresa, mas conseguimos trazer profissionais muito bons para trabalhar.”

A rede Dervish é aberta, ou seja, qualquer pessoa que tenha o perfil de compartilhar e apreço pela economia colaborativa pode participar. Aqueles que estão entrando, também são convidados a contar sobre algo que sabem muito, para começar a “plantar a semente do compartilhamento”, pois logo este vai ouvir alguma experiência dos demais. Pensando em tornar o trabalho viável a todos, possuem uma pequena mensalidade para manter o site, google docs e e-mails ativos.

Comparando a vida de CLT com freelancer, Túlio percebeu algumas diferenças, como por exemplo, ter de pensar no dinheiro que recebe a médio e longo prazo. Este foi um dos aprendizados pelos quais passou, pois precisava se planejar para os meses que não surgissem projetos – algo que até agora não aconteceu.

Com a nova rotina, começou a sentir uma certa “carência social”, pois principalmente em pesquisa, tende-se a ficar muito tempo sozinho dentro de casa. Para isso, tem feito algumas tentativas, como ir trabalhar na casa de alguém ou combinar de ir em cafés com outros freelancers. Conta que em São Paulo há um movimento chamado Hoffice, onde as pessoas que trabalham home office abrem suas casas para receber outros profissionais que estão no mesmo formato, o que também é uma opção.

Sempre teve um ritual matinal, acordar, tomar banho e se preparar para trabalhar, isso dividia o Túlio trabalho do Túlio de casa. Porém, nas primeiras vezes em casa acabava se distraindo muito e o seu horário se alongava até 8, 9 horas da noite. Com o passar do tempo foi percebendo que as atividades que exercia até mais tarde não eram urgentes, e sim consequência de estar no ambiente e seguir fazendo.

Dessa forma, percebeu que precisava ser “muito caxias” com sua organização e ter seus horários, senão iria pirar. Tendo de se policiar em casa, organizou um método de foco: Ele senta para trabalhar, passam-se 50 minutos, o alarme desperta e ele tem 10 minutos para relaxar.

Outra questão que percebia era que os trabalhos avançavam para o final de semana, algo que hoje só acontece se for realmente preciso. Como faz muitas coisas em casa, cozinha, curte seus cachorros, o namorado, organiza tudo, agora consegue encaixar as viagens que quer fazer. Nos conta que tinha uma viagem marcada para Bonito, mas que antes de ir surgiu um trabalho. Muito franco sobre sua situação, falou aos colegas que poderia fazer, mas que estaria viajando. Dessa forma, passava o dia passeando, pelas 9 horas da noite sentava uma hora e resolvia a demanda do dia.

“Poder fazer minhas viagens é algo que eu acho incrível. Meus pais são do interior de Minas, se eu quiser ir pra lá e passar 15 dias, uma semana, eu consigo me programar para ficar lá com eles, sem ter prejuizo nem no meu trabalho nem no dos demais que estão no projeto. A vida de freela me deu mais tempo, está nas minhas mãos decidir o que eu vou fazer. “

“Poder fazer minhas viagens é algo que eu acho incrível. Meus pais são do interior de Minas, se eu quiser ir pra lá e passar 15 dias, uma semana, eu consigo me programar para ficar lá com eles, sem ter prejuízo nem no meu trabalho nem aos demais que estão no projeto. A vida de freela me deu mais tempo, está nas minhas mãos decidir o que eu vou fazer. “

Em contrapartida, sabe que ser freelancer “é muito de perfil”. Possui alguns amigos que começaram a fazer projetos neste formato, mas não conseguiram, acharam muito difícil, pois é preciso mudar todo um jeito de trabalhar que se está acostumado a vida inteira.

Conta não possuir muita “paixão” por grandes marcas. Acha que elas fazem um ótimo trabalho, mas nada que o motiva. Sua exceção é o Airbnb, por ter construído um conceito de negócio que o fascina, baseado na economia de compartilhamento. Suas referências são pessoas que vivem próximo dele, como Max da Dervish, Rita Almeida da CO.R, Paula Rizzo e o pessoal da Mandalah.

Ser freelancer | Mercado de Pesquisa

Refletindo sobre o trabalho dos freelancers, vê que houve um crescimento na procura por esse formato, e que este acontece de dois lados: Primeiro pelos profissionais bons que não estão satisfeitos, segundo pelas empresas que estão percebendo um bom trabalho sendo feito, conseguindo contratar por um preço menor – comparado aos valores de grandes empresas.

“Eu ganho mais como freela do que ever na minha vida. Claro que tem esse planejamento que eu tenho que guardar o dinheiro que eu ganho, mas é diferente. Eles vão pagar mais, porque não tem uma estrutura fixa e os custos da estrutura física, que encarecem muito qualquer projeto. E essas empresas perceberam que, se elas fizerem uma curadoria, saberem escolher os freelas o trabalho vai ser igual ou até melhor do que se o profissional estivesse lá dentro.”

“Eu ganho mais como freela do que nunca na minha vida. Claro que tem esse planejamento que eu tenho que guardar o dinheiro que eu ganho, mas é diferente. Eles vão pagar mais, porque não tem uma estrutura fixa e os custos da estrutura física, que encarecem muito qualquer projeto. E essas empresas perceberam que, se elas fizerem uma curadoria, saberem escolher os freelas o trabalho vai ser igual ou até melhor do que se o profissional estivesse lá dentro.”

A certeza de que estava indo pelo caminho escolhido, veio quando em um dia recebeu 3 propostas de projetos. Conta que tinha medo que os jobs fossem ser inconstantes ou difíceis, mas tudo foi acontecendo muito rápido. Afirma que o importante é fazer um bom trabalho, pois assim não tem jeito, haverão indicações e os projetos chegarão. O que é diferente de empresa, onde há espaço para se fazer um bom trabalho, mas ele pode não transparecer, ser enxergado pela hierarquia ou por uma série de questões políticas internas.

Comparando a cobrança entre ser funcionário e ser freelancer, percebe que se cobra mais, porque agora é Túlio com ele mesmo, não havendo ninguém para tomar decisões em seu lugar. Quanto as trocas que aconteciam dentro da empresa, ele não sente falta, pois consegue suprir isso através da rede. Refletindo sobre quando era funcionário, o que talvez acontecesse era uma cobrança repartida, pois em um projeto era sua chefe, ele e sua par, então eram várias pequenas cobranças que iam crescendo.

Não tem dúvida de que o modelo freelancer vai ser cada vez maior. Acredita que no futuro as pessoas irão trabalhar por projetos, até porque percebe muito as multiplas potencialidades que cada um tem. Acha, também, que cada vez mais haverá procura por esse mundo, porque não está mais funcionando do outro jeito, com os funcionários “encaixotados fazendo o que não gostam.” Além disso, ele não se vê “mudando de lado” por enquanto. Ainda não teve vontade de trabalhar em uma empresa, pois confia plenamente que irá continuar o que está fazendo por um bom tempo.

Quanto ao mercado brasileiro de pesquisa, percebe que as grandes empresas não estão mais conseguindo entregar resultados legais, que a criatividade e inovação estão nas menores. Vê até alguns de seus amigos que trabalhavam em consultorias se tornando freelancers, porque não conseguiam entregar soluções diferentes. Além disso, afirma que as empresas pequenas conseguem ser mais rápidas e cobrar mais barato pelos projetos.

Por fim, acha que São Paulo pode ser um pouco hostil quando se chega, então uma dica para quem está no começo seria conversar com o máximo de pessoas possíveis do mercado, porque elas precisam saber que há interesse nesse tipo de trabalho. “Tem que falar de você, do que você gosta, como você é, e para isso eu acho que aqui é muito aberto”, afirma.

Sem saber exatamente como poderia funcionar, considera legal conversar com quem já trabalha como freelancer, pois estes sempre indicam um ao outro, ou precisam de ajuda nos projetos. Conta que seria interessante, também, acompanhar o trabalho de algum amigo freela, para se ganhar maior segurança sobre o mercado. “Eu acredito muito na rede, são as pessoas que te conhecem que vão te indicar. Você tem que ir, conversar, que as coisas vão acontecendo”, declara.

Quer conversar mais com o Túlio? Segue seu contato:

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Ser Freelancer – por Mayra Fonseca | São Paulo

Conversar com Mayra Fonseca abriu nossos horizontes.

Não só poder conhecer sua trajetória e maneira de trabalhar, mas também saber dos projetos maravilhosos em que ela está envolvida, conhecendo um pouco mais sobre este enorme Brasil.

Já no início de nossa conversa, seu sotaque meio baiano meio mineiro deixa claro onde suas origens estão. Nascer na cidade de Montes Claros, no Norte de Minas, fez dela sertaneja. “Eu sou do sertão de Guimarães Rosa mesmo, com tudo de bom e ruim que isso significa.” começa.

“É uma cidade que tem uma história que marca muito, em quem eu sou e em tudo que eu faço. O fato de eu ser de lá, o fato de eu ter um sotaque diferente, difícil de entender, que é um pouco mineiro um pouco baiano. O fato de eu ser extremamente doce e extremamente brava.”

“É uma cidade que tem uma história que marca muito quem eu sou e tudo que eu faço: Ser de lá significa ter um sotaque diferente que é um pouco mineiro um pouco baiano, ser extremamente doce e extremamente brava.”

Mesmo tendo saído de sua cidade com 16 anos, quando foi para Belo Horizonte fazer faculdade, ainda hoje viaja muito para lá – por conta do seu carinho com o lugar e sua família. Por essas razões zela por um formato de trabalho que a permite estar onde quiser.

Nos conta que as escolhas que teve que fazer, sobre qual graduação seguir, não foram nada fáceis. Estudou música desde os 5 anos, então decidir que não seguiria este caminho já foi uma delas. Sabia que gostaria de estudar algo relacionado a contar histórias. Analisando suas opções, a decisão final de ir para a Comunicação foi pautada pelas disciplinas do curso: Cinema, fotografia, música, sociologia, história.. e foi fazendo o curso que começou a frequentar também Ciências Sociais.

Sua influência do Sertão, como ela mesma diz, não deixou que ficasse parada nem por um semestre. Logo ela foi atrás de estágio, mesmo não tendo clareza de suas vontades profissionais.

Nos seus estudos no início da faculdade, por estar entre Comunicação e Sociais, transitava bem entre metodologias e estratégias: Trabalhou em agência, em áreas de planejamento, em consultoria e também em projetos de extensão com diagnósticos sociais de pequenas cidades brasileiras. Com 21 anos,  logo que se formou, foi cuidar da pauta de pesquisa na Tom Comunicação, ainda em BH. Quem a convidou para esse trabalho foi uma professora da graduação (que então virou sua chefe), por quem Mayra tem muito carinho e admiração até hoje. Adriana Machado foi muito importante para ela, pois foi quem percebeu que a aluna gostava de gente e métodos de investigação. Nessa experiência teve oportunidade de trabalhar junto de importantes clientes de Minas Gerais e grandes institutos como Vox, Copernicus e Ipsos. Mesmo estando super inserida neste contexto que gritava pesquisa, foi de novo Adriana quem a incentivou para o caminho do mestrado.

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“Então a vida foi me levando pra pesquisa e eu fui gostando. Até por causa dos meus temas de interesse, linguagem e regionalismo, eu fui entendendo que o meu lugar era na antropologia. Mas essa figura que eu te contei, a Adriana, que foi uma chefe e até hoje é uma grande amiga foi fundamental pra mim, porque foi ela que me disse que eu gostava de pesquisa, eu não descobri isso sozinha. Ela foi e ainda é, mesmo a distancia uma excelente tutora.”

Com este “empurrãozinho”, Mayra foi para Barcelona fazer mestrado em Etnografia, e brinca que lá tinha uma vida esquizofrênica: Trabalhou como consultora para a empresa americana de pesquisa IRI, uma multinacional com escritório em um local super formal da cidade, onde ficava das 8 da manhã às 2 da tarde. Ao sair de lá, seguia para a área mais alternativa da cidade, comia um sanduíche pelo caminho, tirava os sapatos de salto e bagunçava os cabelos – para ser “a estudante de mestrado” até às 10 da noite.

Depois de 4 anos morando na Espanha, resolveu voltar para o Brasil com o plano de ficar 2 meses inteiros apenas descansando na sua cidade. Entretanto, as coisas mudaram um pouco assim que chegou ao país. Em seu retorno, veio direto para Manaus, para o TEDxAmazônia, evento onde São Paulo estavam em peso.

"E começaram a surgir conversas, propostas de trabalho. Quando eu vi, eu estava há 2 dias de Brasil, 2 dias de Manaus, com várias propostas de trabalho em São Paulo. O que é natural né? Porque uma coisa que esse lugar tem é trabalho. Aí, eu tinha muito preconceito, eu dizia que eu nunca moraria em São Paulo. E aí eu disse, “Bom, eu nunca morei, as coisas estão acontecendo, enfim, as pessoas estão me chamando, então eu vou experimentar”. Aí eu peguei um projeto de um mês, e estou aqui há 4 anos e meio."

“E começaram a surgir conversas, propostas de trabalho. Quando eu vi, eu estava há 2 dias de Brasil, 2 dias de Manaus, com várias propostas de trabalho em São Paulo. Eu tinha muito preconceito, dizia que nunca moraria em São Paulo. E ai pensei, “Bom, eu nunca morei, as coisas estão acontecendo, as pessoas estão me chamando, então eu vou experimentar”. Peguei um projeto de um mês, e estou aqui há 4 anos e meio.”

Relembra que seu primeiro trabalho fixo na cidade foi de Gerente Geral na Voltage, um bureau de pesquisa. Depois, foi Gerente de Comunidade e Comportamento na LiveAd, que é a empresa de inovação e comunicação irmã da Box1824.

Paralelamente, co-criou O Brasil com S – um projeto autoral sobre cultura brasileira – e mais uma vez sua vida mudou bastante. Ao mesmo tempo em que era gerente em uma empresa, com excelentes projetos e profissionais, tinha seu projeto autoral, onde acabava depositando quase toda sua energia. Pra ser justa consigo e com os outros, como ela mesma diz, resolveu sair da empresa. “Isso tem mais de 1 ano e meio, e desde então eu cuido de projetos como freela e dos meus projetos autorais sobre cultura brasileira.” – conta.

Os projetos hoje são dois. Além de O Brasil com S, ela também tem o Brasis, ambos com o mesmo objetivo que é estimular o autoconhecimento do país, mas em um formato e jeito de trabalhar diferentes: O Brasil com S cresceu como uma revista bastante autoral e o Brasis é uma central de conteúdo, um projeto jornalístico feito em rede.

Hoje, eles são mantidos por ela e por projetos encomendados. Mayra encontrou uma maneira de fazê-lo, e por consequência, melhorar sua qualidade de vida. Guarda ⅓ do que ganha para investir nos projetos, e, com o objetivo de economizar, acabou adquirindo hábitos mais saudáveis, como cozinhar em casa, fazer suas reuniões lá mesmo, usar bicicleta como meio de transporte, ter seu horário específico para se dedicar aos projetos, conseguir manter sua lista de leitura atualizada – tudo isso foi reflexo involuntário da economia financeira.

Mayra atribui sua vontade de trabalhar com pesquisa à sua trajetória como um todo. Sente que seu gosto por ouvir e observar, essenciais à um bom pesquisador, vieram dos vários anos da infância em que estudou música. Já seu gosto por gente, histórias de vida, curiosidade e interesse, entende que são devido à sua origem sertaneja, onde a oralidade é muito importante e as histórias ainda são contadas e cantadas: Seu interesse por este Brasil plural se reforça a cada fala.

Como inspiração, tem os mestres de cultura brasileira. Explica: “Mestre é alguém que é detetor de um saber e um ofício. É um termo muito usado em estudos de culturas, em salvaguardas de “patrimônios vivos”, pra usar um termo do IPHAN.”

Cita nomes como Leonildo Pereira, um mestre que faz rabecas artesanais com afinação própria, e também Espedito Celeiro, mestre em artefatos em couro, que tem sua história contada no documentário “A Sandália de Lampião”, além de já ter feito trabalhos para estilistas e os Irmãos Campana.

“Então, se eu for pensar que tipo de gente me inspira hoje, é esse tipo de gente, de verdade. Não tem palestra, curso que eu faça, que me deixe mais mexida do que conversar com esse tipo de gente. Todos esses eu conheci, fui na casa, conversei. É de uma sabedoria, capacidade de adaptação, disciplina, que é o tipo de pessoa, conversa e história que me inspira.”

“Então, se eu for pensar que tipo de gente me inspira hoje, é esse tipo de gente, simples, criativos na prática cotidiana. Não tem palestra, curso que eu faça, que me ensine mais do que conversar com essas pessoas. É de uma sabedoria, capacidade de adaptação e disciplina admiráveis.”

Ser freelancer | Mercado de Pesquisa

Já experimentou vários formatos de trabalho, e acha que a estrutura que uma empresa formal oferece é também muito válida, segundo a necessidade das pessoas e dos projetos. Porém, muitas vezes são tão burocráticas que acabam interrompendo processos criativos importantes. Além disso, a grande maioria trabalha com uma hierarquia que não é aplicável a projetos contemporâneos. “ Acho que quando a gente trabalha com pesquisa, às vezes alguém que é muito “junior” tem mais conhecimento de um cenário, mais conhecimento de um vocabulário, que é o que eu considero fundamental pra começar um campo, do que o diretor da área.” – completa

Não enxerga diferença na responsabilidade de trabalho como freelancer, pois sempre esteve muito envolvida em todos os projetos que trabalhou, independente de onde estivesse, cargo ou modelo de trabalho. De qualquer maneira, vê uma mudança de processos, onde existe uma flexibilidade e um  jeito de trabalhar diferente dos tradicionais. Acredita que para muitas pessoas, o fato de trabalhar de forma independente ou em rede faz com que os indivíduos se sintam mais parte do projeto e se entreguem mais.

Acha interessante que essa imagem da flexibilidade do freelancer seja visto como algo inovador, sendo que a grande maioria do Brasil  – que ela vê em suas pesquisas – está muito acostumado a viver de forma independente, com informalidade, com o trabalho comunitário. “Por isso tantas vezes a gente vive as crises econômicas globais sem grandes traumas, comparado a outros países.” – arrisca.

De maneira geral, tem um pouco de receio da falta de compreensão que algumas empresas tem do que é “ser freelancer”.

“Então significa que trabalhar assim rompe estruturas, para todos os critérios. Eu acho que para o Brasil isso é muito importante, porque é romper um pouco essa noção de “fornecedor-serviçal”, que tem que estar disponível e que tem que se submeter a qualquer coisa. Que a gente tem escala nisso, na minha opinião independente de classe sócio-econômica, e isso pra qualquer prestação de serviço: tem a noção de que ele é um serviçal e não um fornecedor que está prestando um serviço, combinado e acordado.”

“Tornou-se algo bacana contratar esse tipo de profissional, mas muitos não entendem como isso funciona de verdade: A falta de estrutura que pode baratear um projeto também pede que ele seja pago em dia e com um prazo razoável, pois não há empresa ou instituto bancando este profissional enquanto ele espera receber pelo trabalho; todo o material que o contratado produz tem um custo, sua agenda é diferente e não é possível largar tudo e ir em uma reunião marcada de última hora. Trabalhar assim rompe estruturas, para todos os critérios. Eu acho que para o Brasil isso é muito importante, porque significa romper um pouco essa noção de “fornecedor-serviçal”, que tem que estar disponível e que tem que se submeter a qualquer coisa.”

Para ela, a escolha de ser freelancer veio naturalmente, pois sempre teve um perfil de questionar como se usa o tempo e os processos estabelecidos, além de considerar que o formato pode ser tão bom pra ela quanto para as pessoas que trabalham junto, inclusive os clientes.

Seus projetos autorais tiveram, também, participação na adoção do formato, pois tomaram uma proporção que ela não esperava – a princípio eram apenas projetos paralelos, de estudo.

Considera um grande desafio conseguir conciliar tudo que se precisa fazer, mas a sua adaptação fez com que Mayra desenvolvesse uma rotina de invejar:

Quando está em São Paulo, marca sua yoga de manhã cedo, pois foi a única maneira que encontrou de acordar sem grandes dificuldades. Depois de tomar banho, tomar café e vestir uma roupa que poderia sair com ela para um reunião, dedica as manhãs para trabalhar em seus projetos. Não olha e-mails nesse período e segue os ensinamentos que trouxe de sua tutora Adriana: “Primeiro a gente faz o que é importante, depois a gente faz o que é urgente.” Então, se Mayra decidir que é importante para ela ter projetos autorais independentes, pra desenvolver metodologias e falar de culturas brasileiras, ela faz isso de manhã. À tarde ela terá demanda, cliente ou imprevistos para cuidar… e se não parar para fazer o que é importante primeiro, ela vai fazer só o que é urgente, ou o que é prioridade para o mundo fora dela.

Sempre faz seu horário de almoço e aproveita este momento para conversar com pessoas, amigos que a queiram encontrar. Do período da tarde em diante,  trabalha nos projetos encomendados, trabalhando até tarde sem problemas nas segundas, terças e quartas, inclusive reuniões. As quintas, sextas à noite e nos finais de semana, não trabalha, a não ser que seja muito importante para ela ou para um projeto.

Mayra confessa que seus dilemas sobre ser freelancer são mais pessoais do que profissionais. Pensa muito sobre a sustentabilidade desta rotina de trabalho, para ela, nos próximos anos. Como poderia se organizar para engravidar e ter filhos, por exemplo? Com isso, entende que é preciso criar novos modelos de trabalho autônomo para a mulher, especialmente.

"Gravidez, gestação e filho. Tudo isso dura um ano e meio na vida de uma mulher, pelo menos. Como é que você fica um ano e meio nesse momento de vida sem seguro maternidade, dado que você vai precisar de um plano de saúde nesse país? Porque quando a gente tem bebe a gente vira a noite amamentando, e não fazendo projeto. E ai? Eu penso muito nisso, mesmo. “Tá, se eu engravidar tenho que ficar 3 meses sem poder pegar um avião. Como é que eu vou fazer as imersões que eu faço, que eu gosto de fazer?” 

“Gravidez, gestação e amamentação. Tudo isso dura um ano e meio na vida de uma mulher, pelo menos. Como é que você fica um ano e meio nesse momento de vida sem seguro maternidade, dado que você vai precisar de um plano de saúde nesse país? Porque quando somos mãe a gente vira a noite amamentando, e não fazendo projeto. E ai? Eu penso muito nisso, mesmo. Tá, se eu engravidar tenho que ficar 3 meses sem poder pegar um avião.”

Acredita que neste jeito de trabalhar, como freelancer e por projetos, mas pessoas não podem ser orgulhosas, nem ter vergonha de ligar para os amigos e clientes “pedindo trabalho”. “Então eu acho que é um jeito de trabalhar que tem que ter mais papo reto, pra todas as medidas. Ainda não passei aperto, mas eu sei que isso pode acontecer, eu coloquei bastante o pé no chão.”

Sua principal dica para quem está começando como freelancer é a mesma que ela carrega consigo: Faça primeiro o que é importante e depois o que é urgente.

Em relação ao mercado de maneira geral, sente existir uma dificuldade dos grandes centros pesquisarem os interiores. Talvez por uma falta de afinidade ou desconhecimento do quão rico em dados primários são estes locais.

Se preocupa também com a generalização nas análises de informação, a falta de noção de que nosso país é enorme, existem muitas camadas para compreender e não podemos apenas falar do jovem, da inovação ou da classe C do Brasil: Existem muitos Brasis! Para Mayra, o profissional da pesquisa tem um papel importante para não deixar isso ocorrer.

Sobre o momento, sente que mais do que uma crise existe um medo. As pessoas estão antecipando essa crise sem entender que algumas mudanças são urgentes. “Eu acho que alguns valores da nossa sociedade precisam cair por terra né? Pra gente recomeçar melhor.” – finaliza.

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Ser Freelancer – por Camila Marder | São Paulo

Como Cami Marder mesmo diz, “nós fazemos mil planos e as coisas vão acontecendo de acordo com a nossa vida do momento.” Por tudo que já experienciou, pode-se dizer que ela tem muita história pra contar.

Tudo começou em Camaquã, cidade no interior do Rio Grande do Sul. Com dúvida sobre qual faculdade iria fazer – tinha curiosidade por moda, mas na época não havia o curso no estado – foi para a psicologia e adorou. Como tinha um namorado, escolheu fazer a faculdade em Guaíba para que pudesse vê-lo com mais frequência.

Conta que começou o curso com uma ideia romântica e acha que metade das pessoas vão querendo se tratar e a outra acreditando que a vida será um filme, “que tu vai trabalhar na CIA e fazer profile de psicopatas ao redor do mundo”. Sendo assim, todas as etapas da sua formação tiveram algum envolvimento com a área criminal, como por exemplo, o ano que passou trabalhando no Fórum e atendia “casos cabeludos”.

Formada, a realidade de consultório era um tanto deprimente: Não sabe porque, mas todas as suas pacientes eram depressivas. 

“Eu era muito jovem, tinha 24, 25 anos e pensava que não era para isso que eu tinha estudado. Eu acho que ninguém recem saído de uma formação de psicologia tem o cacife para resolver, ajudar, fazer essa psicologia clínica que é super intensa.”

“Eu era muito jovem, tinha 24, 25 anos e pensava que não era para isso que eu tinha estudado. Eu acho que ninguém recém saído de uma formação de psicologia tem o cacife para resolver, ajudar, fazer essa psicologia clínica que é super intensa.”

Em seguida foi morar em Porto Alegre por um período. Com a perda do pai, sua mãe veio morar na capital e Cami decidiu que havia chegado a hora de viver no mundo. Empacotou todas as suas coisas e foi para o Canadá estudar inglês, já pensando que de lá iria comprar uma passagem para qualquer lugar e nunca mais iria voltar. Porém, seu lado família falou mais alto e após 7 meses em Montreal voltou para o Brasil.

Já nas terras brasileiras, decidiu que iria visitar sua irmã em São Paulo. Do passeio, Cami conheceu seu marido, mais um motivo para ficar na cidade. Sua ideia na época era de resgate, porque ainda era muito jovem, então poderia estudar moda, se especializar em psicologia e viver a capital.

Uma conhecida que trabalhava na Box1824 entrou em contato com ela, pois como estava em São Paulo e a empresa estava precisando de pessoas para fazer campo e pesquisa, ela poderia ser indicada. Conta que já havia ouvido falar da Box, mas que a pesquisa de mercado nesse momento era algo meio nebuloso. Pensando ainda na oportunidade, ouviu falar da empresa em um de seus cursos de moda, porque na época a pesquisa era muito usada para tendências. Achou incrível, mandou seu currículo e um tempo depois recebeu a ligação de que a queriam para um freela, no Rio de Janeiro – no dia seguinte.

Fez o primeiro job apavorada. Ela possuía o seu lado psicóloga, de gostar de gente, de conversar, mas por outro lado tinha a timidez a vencer, que a pesquisa ajudou a solucionar. Quando voltou, havia a primeira entrega e não tinha ideia de como fazer, pois estava acostumada com os estudo de caso, análises complicadas e citações freudianas. Tudo deu certo, a empresa queria contratar e aceitou a proposta, foi assim que a pesquisa surgiu em sua vida. Considera que a Box foi sua escola, mesmo estando há um ano e meio freelando e tendo conhecido várias pessoas legais pelo caminho.

Nos 4 anos sendo “boxer” trabalhava no formato PJ, ou seja, tinha sua empresa mas não podia prestar serviço para fora. Além deste vínculo maior, tinha também plano de saúde e férias. Sendo pioneira no tipo de pesquisa que possuía, com o passar do tempo a empresa foi passando por mudanças e crescimentos.

“A gente era uma comunidade hippie, era uma família de fato, algo muito próximo. Quando eu sai que foi, eu acho, na última grande reestruturação da Box, acho que a gente era em 60 pessoas e eles demitiram 30 e poucas pessoas, pra começar a trabalhar com o esquema de rede. Eu entrei sem ter a mínima ideia sobre pesquisa e terminei sendo gestora do núcleo de campo da Box. Quando eu sai eles fecharam o núcleo de recrutamento e campo, ficaram só o trends e os diretores de planejamento. Todos esses núcleos que faziam da Box um organismo mais dependente, foram diluidos pra ela funcionar como rede. Ai eu trabalho pra eles desde então nesse formato, o que eu acho que foi ótimo para o meu crescimento pessoal.”

“A gente era uma comunidade hippie, era uma família de fato, algo muito próximo. Quando eu sai que foi, eu acho, na última grande reestruturação da Box, alguns profissionais foram demitidos para começarem a trabalhar com o esquema de rede. Eu entrei sem ter a mínima ideia sobre pesquisa e terminei sendo gestora do núcleo de campo da Box. Quando eu sai eles fecharam o núcleo de recrutamento e campo, ficaram só o trends e os diretores de planejamento. Todos esses núcleos que faziam da Box um organismo mais dependente, foram diluidos pra ela funcionar como rede. Ai eu trabalho pra eles desde então nesse formato, o que eu acho que foi ótimo para o meu crescimento pessoal.”

No formato freelancer que está agora, pode fazer projetos para as empresas que quiser – como a CO.RGrimpa e FSB com quem trabalha atualmente. Mesmo assim continua fazendo vários jobs para a Box, que hoje envolvem mais o todo da pesquisa e não apenas algumas etapas. Conta que uma das coisas mais legais de ser freela foi poder entender outras maneiras e formas de se fazer pesquisa, o que acabou enriquecendo todos os envolvidos.

Dificilmente trabalha sozinha, pois costuma organizar equipes por projetos. Por outro lado, há trabalhos em que fica “sozinha”, mas em contato o tempo todo com a agência e planejamento do cliente. Ela faz as entrevistas, mas depois constrói os insights com todos. Um dos lados que pode ser ruim nesse formato é a solidão e a falta de troca com o outro, mas com Cami isso não acontece. Nem campo ela gosta de fazer sem companhia, costuma trabalhar com uma dupla, porque acha muito importante ter com quem compartilhar, além de ter alguém para ajudar a entender o novo quando vai a algum lugar diferente.

Como a maior parte do seu trabalho é realizada na rua, entrevistando, agendando entrevistas, fazendo campo, moderando, não fica muito em casa. Quando precisa produzir, “baixar a psicóloga”, ai sim fica em sua residência, porque curte o espaço e gosta de trabalhar dali. Nunca sentiu necessidade de ir para outro lugar, pois tem tudo que precisa.

Sem rotina fica um pouco ansiosa, especialmente por ter projetos pessoais que não consegue dar a devida atenção, porém acredita não ser um problema exclusivo do freelancer. Com as pesquisas acaba viajando muito, com cronogramas para ontem, mas vê que isso podem acontecer em qualquer formato e profissão. Percebe os dois lados, negativo por conflitar um pouco com a vida pessoal e positivo por  viver realmente sem rotina, trabalhando por projetos – algo que ama.

Muitas das pessoas que passaram por sua vida a inspiram. Uma delas é a Mariana Baldi, que já foi sua chefe e quem a ensinou como fazer pesquisa. Conta que Mari é totalmente apaixonada, tem uma visão super pura e do consumidor, o qual ensinou a defender.  “Muito bem, os carros serão verde limão.” “Não cliente, o consumidor não quer carro verde limão, quer transparente”, por exemplo.

Ser freelancer | Mercado de Pesquisa

Por ter vindo da psicologia, acredita que sempre teve uma visão mais autônoma. Sendo assim, brinca que sua formação já a havia preparado para ganhar pouco, não tirar férias nem ter salário fixo.

A transição de PJ para freela foi considerada tranquila, pois saiu da Box finalizando um projeto e já tendo trabalho deles como freelancer. Sentiu uma apreensão maior depois que voltou de férias, momento em que o país estava em clima de pré copa e tudo andava meio estranho. Passou 15 a 20 dias sem trabalho, o que a fez começar a se perguntar se iria ou não aparecer algo. Considera que isso faz muito parte dessa vida de profissional liberal, onde as vezes não surgem trabalhos, mas não é porque a pessoa é incompetente, e sim porque o mercado está mais sensível – algo que dentro de uma empresa é mais difícil de ser percebido.

Esses momentos de baixa acabam sendo para aproveitar o que “a vida está te dando”, ao invés de ficar pensando em mil problemas. Então, Cami enviou e-mail para seus contatos e sabia que uma hora algo iria aparecer. Assim tranquilo, pode ir ao cinema ver um filme que a muito queria assistir, ler livros e dar uma atenção maior aos projetos pessoais.

Quanto aos freelancers, sente que a percepção das pessoas mudou muito. Inclusive, a glamourização do freela está passando. Esses profissionais não estão mais sendo vistos como extraterrestres, home officers ou aqueles com vídeo game no trabalho. A mainstreamização foi muito boa, ajudou empresas mais tradicionais a pensarem diferente. Sendo assim, acredita não ser mais estranho, assim como não funciona mais como moeda de troca.

Se observarmos, hoje há várias pessoas que são freelancer, o que é algo muito interessante. Percebe que o mercado era tão opressor, estrangulador, fazia com que as pessoas enlouquecessem sem vida pessoal, que essa foi a saída para que estas vissem uma luz.

Pensando no lado do mercado, sabe apenas que está trabalhando muito. Não tem conhecimento de por qual motivo, se é porque as empresas estão aceitando melhor o formato, ou porque fica melhor para seus bolsos. Afinal, diluindo tudo é um ganha-ganha, o freelancer consegue cobrar mais e as organizações sabem que podem pagar mais, pois não irão ter uma infinidade de ações trabalhistas no futuro. Ao mesmo tempo vale a pena para o profissional liberal, porque ele está trazendo um olhar para alguém que está impregnado por uma estrutura, algo que pode acontecer em qualquer marca. Assim, esta consegue inovar um pouco – tanto para os processos como para os funcionários –  e traz novos mindsets.

“Outra hipótese é as empresas estarem percebendo que o conceito de trabalho está sendo percebido de um jeito diferente, onde não é mais ele que te define. A gente aprendeu assim, antes de falar quem tu é tu diz “sou psicóloga”. Não é assim, sou Camila, trabalho em casa, by the way, trabalho com pesquisa..” esse é o grande mindset.”

“Outra hipótese é as empresas estarem percebendo que o conceito de trabalho está sendo percebido de um jeito diferente, onde não é mais ele que te define. A gente aprendeu assim, antes de falar quem tu é tu diz ‘sou psicóloga’ Não é assim, ‘sou Camila, trabalho em casa, by the way, trabalho com pesquisa…’ esse é o grande mindset.”

Durante os anos que trabalhou como pesquisadora, Cami teve vários momentos em que sentiu estar seguindo no caminho que acreditava. Desde os menorzinhos, onde vê o trabalho feito sendo refletido em um produto ou ação, até o prazer que sente em encontrar pessoas, ouvir os causos de campo e conhecer histórias tão inspiradoras que te mudam em pequenas coisas. Considera incrível quando se chega para alguém falando sobre um trabalho que se está realizando, a pessoa abre o coração e em muitos casos até a própria casa.

Como não há escola para ser freelancer, os ansiosos precisam ir aprendendo a lidar com as incertezas desse universo. Para que haja equilíbrio, também é importante se organizar o máximo possível nas questões da vida pessoal, comenta. Além disso, considera interessante haver um planejamento financeiro, especialmente para aqueles que já saíram da fase de “experimentar ser freela”.

Pensando no mercado brasileiro de pesquisa, lembra que antigamente, para explicar  e vender esse serviço, era necessário mostrar a importância de ouvir o consumidor, que era ele quem trazia um insight muito mais relacionado com a realidade. Acredita que hoje em dia as pessoas já saibam o que é e considera muito interessante que estas estão acreditando mais na qualitativa – pois o quantitativo dominou o mercado por muito tempo.

A qualitativa vem para ouvir o consumidor com qualidade, o que é a grande diferença. Entre seus achismos, considera que talvez aconteça com o tempo, a criação de núcleos de pesquisa qualitativa dentro das empresas, algo que mudaria o mercado para os freelancers. Afinal, se há tantos profissionais fazendo esse trabalho, é porque as marcas perceberam a necessidade desse serviço.

Por ter “se formado nas ruas” acha que há muitas pessoas legais fazendo pesquisa por ai. Se pudesse dar um dica, diria para os interessados irem, colarem nessas pessoas e entenderem como funciona o trabalho. Quando encontra algum curioso diz “cola ai, eu estou sempre precisando de gente.” Como há muitos profissionais fazendo pesquisa acaba ficando difícil saber quem de fato se conecta e quer se entregar. As vezes sente que alguns acham que esse trabalho é como se fosse uma passagem, do tipo “ah, eu vou ser freela. Sou bom de conversa, então vou fazer pesquisa.” Pensa que isso deve acontecer muito, então se torna difícil encontrar os reais entusiastas, que estão afim mesmo de sentar e conversar sobre diversos assuntos. Tanto Cami quanto as demais meninas que trabalham com ela, volta e meia precisam de ajuda nos projetos. “Vamos construir essa nova rede, virar um família de freelas” afirma.

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