Home office não é bagunça

“Trabalhar por conta própria é maravilhoso e terrível. Não temos feriado ou licença médica, e nenhuma segurança. Nenhuma oportunidade de desenvolvimento é oferecida para mim, a não ser que eu mesma pague por ela, e não há ninguém para elogiar o meu trabalho ou mesmo perceber o quanto eu estou trabalhando duro. Se eu não tomo cuidado o trabalho facilmente extrapola para antes do café da manhã, depois do jantar e para os fins de semana. Se alguma coisa der errado, não há ninguém a quem culpar ou com quem conversar. Isso posto, se eu pudesse escolher, faria a mesma coisa de novo. Adoro poder gerenciar a minha própria agenda, estabelecer relacionamentos com quem eu quiser e saber que estou construindo meu próprio caminho no mundo do trabalho. Adoro saber que o que estou fazendo é realmente importante para as pessoas – elas me dizem isso. Também ajuda pensar que a segurança que eu poderia estar perdendo por não trabalhar para uma empresa não existe. As pessoas são demitidas, ficam doentes. Não há qualquer garantia de que a vida continuará do jeito que está por qualquer período do tempo.”

Fiona Robyn criadora do Writing Our Way Home, citada no livro Como Encontrar o Trabalho da sua Vida, de Roman Krznaric – The School of Life.

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Várias foram as razões que nos levaram a querer escrever sobre como é ser freelancer trabalhando em casa, mas o livro Como Encontrar o Trabalho da sua Vida foi o empurrão que faltava. Primeiro motivo foi o fato de várias pessoas próximas à ZEST estarem procurando novos rumos profissionais e virem nos perguntar como funciona criar uma empresa para trabalhar em casa. O segundo foram as incertezas que envolvem todos aqueles que não estão mais felizes no trabalho atual, mas que não possuem coragem ainda para dar um pulo de para quedas no desconhecido. Por isso, vamos trazer alguns pontos – positivos e negativos – que identificamos no período de um ano. O terceiro é para realmente aproximar essa realidade daqueles que tem curiosidade, levando em consideração que hoje em dia se pode ter “profissões personalizadas”, ou seja, você pode fazer o que quiser.

Primeiros passos para ter uma empresa

Muito bem, digamos que você já entendeu seus vários “eus” (sim, porque dificilmente gostamos de fazer apenas uma coisa). E também conseguiu encontrar uma atividade que lhe trouxesse  liberdade, fluxo – aquele momento em que desconectamos quando estamos fazendo algo que amamos, onde não sabemos que horas são, dia da semana ou se comemos – e sentido, que envolve o que sentimos termos nascidos para fazer, pois não adianta você estar em fluxo plantando flores, se não se imagina sendo jardineiro.

Sendo assim, depois que você escolheu a atividade que quer fazer e decidiu trabalhar no formato freelancer, o primeiro passo é abrir uma empresa, ou seja, criar um CNPJ. Com esse mundo lindo da internet, basta alguns minutos e você já sai com seu número, que é nada menos que o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – equivalente ao CPF, só que para empresas.

Atualmente, existem dois formatos para quem está começando pequeno: o MEI e o ME. O primeiro é o microempreendedor individual, que segundo o Portal do Empreendedor, é aquele que trabalha por conta própria e se legaliza como pequeno empresário. Para isso, é necessário que o faturamento seja de no máximo 60 mil por ano – uma média de 5 mil por mês – e que não se esteja vinculado a nenhuma outra empresa como sócio ou titular.

Entre as vantagens divulgadas por eles estão: facilidade na abertura de conta bancária, pedido de empréstimos e emissão de notas fiscais. Os custos mensais fixos variam conforme a categoria de cada um, sendo: R$40,40 – comércio ou indústria, R$44,40 – prestação de serviços ou R$45,40 – comércio e serviços (muda conforme o valor do salário mínimo). Dentro dessa taxa está incluído o valor para emissão de notas e sua contribuição mínima para o INSS, onde o microempreendedor terá direito ao auxílio maternidade, auxílio doença, aposentadoria, entre outros. Nesse modelo de empresa, é possível ter apenas um funcionário registrado.

O ME ou EPP são as microempresas/empresas de pequeno porte. Para abertura se faz necessário passar pela mesma burocracia do MEI, ou seja, criação do CNPJ, ir na Secretaria da Fazenda para fazer a inscrição municipal e na Prefeitura Municipal para tirar o alvará. Esse modelo é como se fosse o passo seguinte ao MEI, pois é possível atingir um faturamento maior, ter sócios e mais funcionários para dar conta da demanda.

No dia a dia, a diferença maior cai sobre as notas fiscais, pois no MEI não há imposto (esse valor já está incluído no pagamento mensal), enquanto no ME sim – e o valor depende da categoria em que a empresa se enquadra. Sendo assim, é imprescindível contratar um contador, para que os cálculos dessas porcentagens e prestações de contas possam ser feitas da maneira mais correta. Mesmo sem a necessidade desse serviço, o MEI também precisa manter sua prestação de contas organizada e em dia: o que você pode realizar sozinho ou com ajuda de um contador voluntário.

Fora a questão burocrática, há outro ponto prático bastante importante:  ter segurança. Não só para decidir o que se quer fazer, mas apoio, também, no lado financeiro. O início de um negócio pode ser difícil, especialmente se você não tem nenhum cliente garantido ou ainda está buscando lugar ao sol. É preciso se preparar, seja juntando dinheiro enquanto ainda trabalha como contratado em alguma empresa, prestando outro serviço que não é exatamente o que você ama fazer mas é remunerado, ou tendo o apoio da família. A falta de segurança financeira e de capital para investir nesse inicio do negócio pode fazer você começar com o pé errado – levando à frustrações e a desistir da empreitada mais facilmente.

A vida que você não imaginou ser possível existe

Então, você já abriu sua empresa e decidiu ser freelancer. Seu negócio está apenas começando, sendo assim, optou por trabalhar em casa, onde os custos com aluguel, luz, internet e telefone ficam embutidos nos gastos normais da residência. Como muitas reportagens já disseram nos últimos tempos, ser home office exige muita organização. Se você mora com outras pessoas ou tem filhos, é importante esclarecer a todos que você estar em casa trabalhando não é o mesmo que você “estar em casa”, ou seja, não se está ali para dar atenção a eles, virar porteira, cozinheira e faxineira. Claro, se a ideia é ter mais tempo para a família, ótimo, mas algumas horas do dia você terá de trabalhar. Portanto, é importante deixar claro até onde você está disponível. O que ajuda na maioria dos casos é ter um espaço na casa só para você e seus materiais. Assim, quando se entra nele há uma quebra, “ok, estou no meu ambiente de trabalho” e para os demais que moram com você, “ok, ela está na sala dela ocupada, não vamos atrapalhar”.

Sendo freelancer e home office, aqueles deveres fora do trabalho que você costumava ter ficam mais fáceis. Você pode se organizar e ir no supermercado quando não é horário de pico, pode fazer academia quando não tem muito movimento, o que em alguns casos dá até um desconto na mensalidade. Se você mora em um bairro bem localizado, ou perto de alguns clientes, é possível ir a pé até as reuniões, pois há mais tempo para a locomoção – o que no fim é bem melhor, porque as chances de você se atrasar diminuem muito quando se depende apenas da própria rapidez.

Pode tirar um tempo maior para o horário do almoço, resolver seus problemas urgentes, como ir no médico, pagar contas, buscar os filhos na escola sem tanto stress. Se você tem maior flexibilidade de horários, onde a entrega da demanda é o principal, também facilita muito. Por exemplo, se você precisou trabalhar um dia até às 3 horas da manhã, no outro dia você pode acordar mais tarde. Não precisa bater ponto, ficar fingindo que está fazendo alguma coisa, quando na verdade se poderia estar resolvendo problemas pessoais nesse tempo – aumentando consideravelmente a concentração do profissional que está com menos preocupações.

Se você enjoou de ficar em casa, trabalha com algo que exige criatividade e só precisa de luz e internet para isso, nada te impede de ir para um café, casa de praia ou onde considera mais aconchegante e tranquilo. O importante é manter o planejamento e não se perder com distrações. Depois que já terminou o que precisava fazer no dia, se há algum hobbie, atividades que te dão e sensação de fluxo ou um curso novo que sempre quis fazer, chegou a sua hora.

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O lado nem tão bom de ser home office

Algumas questões a gente só se dá conta no dia a dia. Mesmo assim, tudo tem uma solução que é melhor, no nosso ponto de vista, do que ficar trancado 8 horas por dia. Primeiro, você não tem um vínculo empregatício, além do fato de ser empresário, então tudo no negócio é responsabilidade sua. Como foi dito na citação lá no início, não vai ter ninguém investindo em você e é muito fácil perder a noção do tempo. O que pode ser bom, afinal, toda essa dedicação é para algo seu.

Se você participa de projetos com divisões de tarefas, haverão momentos em que ficará apenas com a sua companhia, com pouca interação interpessoal.  Há quem trabalhe melhor sozinho, coloque fones de ouvido e se concentre mais. Porém, para alguns pode ser prejudicial, auxiliando na perda de foco e procrastinação. Para ser home office é preciso disciplina, mais do que se estivesse em uma empresa, pois não há ninguém fazendo o papel do líder. O que é bom se você não gosta de ter “chefe” e possui a capacidade de se auto gerenciar – e ruim se você não tem disciplina e deixa tudo para a última hora. Viver perigosamente, no limite do prazo em um projeto ou outro não tem problema, mas fazer disso uma rotina pode minar sua vida profissional.

Uma boa solução para ter disciplina é acordar e se arrumar como se fosse sair para trabalhar. Ok, não precisa de uma mega produção, mas algo que não seja o pijama pode ajudar naquele salto “da cama para a cadeira”. Sair de casa para trabalhar em um café, coworking ou na casa de um colega freelancer também auxilia a ter um pouco mais de ordem e motivação.

Com o passar dos meses, percebemos que há dois perfis de pessoas no modelo de trabalho empreendedor/home office: Aqueles que já trabalharam antes com carteira assinada e aqueles que começaram logo seus negócios. No primeiro, percebe-se haver um pouco mais de dificuldade na adaptação, especialmente, se as atividades exercidas anteriormente eram muito focadas em uma área.

Quando se decide abrir uma empresa, normalmente, os idealizadores ao menos no começo acabam fazendo de tudo: planejamento, prospecção, vendas, comunicação, marketing, finanças, entre outros. Para muitos, a maior dificuldade está na parte de prospecção e vendas, pois por ser um negócio novo, considera-se difícil haver confiança suficiente para ouvir não, ou que alguns tenham dificuldade em entender o serviço/produto da forma como está sendo oferecido.

Por outro lado, aqueles que estão no empreendedorismo de primeiro trabalho, aparentam ter maior facilidade as mudanças e ao desapego, especialmente, por nunca terem estado vinculados a organizações que trouxessem certo conforto. Todavia, por não possuírem experiência com outras equipes, costumam passar por erros considerados básicos no relacionamento com os demais e na administração.

O que os dois perfis enfrentam são os sobe e desce da segurança. Estar atento sempre para novas oportunidades, vender as ideias, acreditar em seus produtos e serviços podem ser alguns dos passos mais complicados. Quando existem estes problemas, os negócios costumam demorar mais para gerar resultados.

Uma saída para aqueles que possuem uma personalidade mais introspectiva, pode ser se vincular à outras empresas que realizam prospecção, tendo o próprio serviço como terceirizado. Isso funciona muito bem para prestadores de serviços, que continuam tendo suas marcas, mas atendem organizações parceiras. A burocracia que envolve é apenas a apresentação da nota fiscal, uma garantia para ambas as partes.

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O mais importante disso tudo: Poder tomar todas as decisões da sua vida. Fazer o que te faz se sentir bem, no lugar onde você quiser, sozinho ou não, trabalhar quantas horas considerar necessárias, viajar quando quiser e não ter que dar satisfação para quase ninguém – salvo aos clientes.