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Imaginando futuros possíveis: o desafio do empreendedorismo

Empreender é imaginar. Muita gente pensa que o mundo do empreendedorismo é habitado por pessoas racionais, pragmáticas e só voltadas para resultados quando, quanto mais se entra nesse universo, mas a gente percebe que a fantasia, a visão e a capacidade de abstração é o que muitas vezes separa um projeto bem sucedido de outro que acaba se esfarelando pelo caminho. E, tenha certeza: a trajetória de qualquer empreendedor é repleta de farelos, de idéias inacabadas, de coisas que não deram certo. A imaginação é algo que tem que ser cultivada, nutrida e principalmente praticada. É preciso aprender a imaginar futuros possíveis.

Sou uma antropóloga que faz trabalho de campo junto a jovens empreendedores brasileiros. Isso significa que eu acompanho, agora por 3 anos, a rotina de pessoas comuns que decidiram abrir seus próprios negócios. Não qualquer tipo de negócio. São projetos construídos com base em modelos de gestão de inovação e criatividade, pensados para modificar de algum modo o mercado, a rotina de consumidores e a vida daqueles envolvidos em sua realização.

Fazer isso não é nada fácil. Não é todo mundo que consegue empreender nessa dimensão do mundo dos negócios. Primeiro de tudo, é preciso uma sólida formação de negócios. As pessoas com quem passei a conviver nesses últimos anos têm uma trajetória por escolas de business e marketing, sabem muito bem montar modelos de negócio, estrategias de branding. Passaram anos aprendendo na prática como realmente funcionam os mercados nos quais atuam e, depois de algum tempo trabalhando em empresas, decidiram que poderiam fazer algo mais significativo com suas vidas profissionais. Algo que pudesse valer a pena.

Todo empreendedor nasce desse sonho. Dessa fantasia de tornar sua vida mais relevante e significativa. Quem dá o próximo passo e decide empreender é mobilizado exatamente por esse imaginário. Depois vêm os cálculos de retorno, os modelos de negócio, a pesquisa, a busca por investimento.

Muito provavelmente essa primeira ideia vai dar errado. Desculpa a sinceridade. Geralmente essa ideia começa toda grandiosa. E aí você encontra pedras no caminho. Como o projeto vai funcionar mesmo? Qual é a proposta de valor? Isso faz sentido para alguém além de mim mesmo? Vai lá. Monta. Tenta. Dá errado. Tenta de novo. Ninguém vai comprar isso. Ninguém está contratando o meu serviço. Volta para a mesa. Pensa de novo. É exatamente o atrito entre esse grande bloco de mármore – que é a sua ideia – e as pedras na realidade que vai refinando o produto final, vai cortando, lapidando, polindo a sua ideia até ela se tornar algo que você quase consegue tocar. Percebeu como todo esse movimento aconteceu principalmente dentro da sua cabeça? Imaginar é um trabalho muitas vezes solitário. Você consegue ver, mas como compartilhar a sua visão com outras pessoas?
Imaginar também é fazer esse exercício de empatia. É pensar qual é a melhor maneira de colocar em palavras, imagens e ações um universo que ainda não existe e que, para efetivamente existir, outras pessoas não só têm que acreditar em seu potencial como aceitar fazer parte dele. Investir seu tempo e esforço para fazer algo acontecer.

Muitos empreendedores têm idéias geniais. A maioria falha em imaginar como o mundo lá fora vai acertar essas idéias geniais. Outra coisa que aprendi ao longo do caminho é que empreender é sim um trabalho com momentos de muita solidão, mas ele é um projeto coletivo. Essa história do empreendedor visionário que existe por si mesmo não existe de verdade. Ele precisa convencer pessoas das mais variadas trajetórias, histórias de vida, interesses e motivações a ajudar ele a concretizar seus sonhos.

Quando chegamos a esse ponto, a ideia original já se tornou um híbrido entre o modo como o empreendedor vê o mundo e o modo como as pessoas que o cercam enxergam esse mesmo mundo. A ideia se tornou uma malha de sonhos entrelaçados, um projeto coletivo que tende a se expandir cada vez mais à medida que o negócio cresce.

Cada negócio é um imaginário coletivo. É uma bricolagem de visões distintas que tem que funcionar. O empreendedor bem sucedido é aquele que consegue enxergar os limites da sua própria ação e consegue dialogar com pessoas tão diferentes que, no final do dia, querem a mesma coisa: um outro futuro possível.

 

+ créditos para foto: Teresa Freitas


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