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Ladies, Wine and Design – sobre ser mulher, criativa e gaúcha

Ladies, Wine and Design, para quem não conhece ainda, começou em Nova Iorque pela mente brilhante de Jessica Walsh, sócia e designer da famosa Sagmeister & Walsh. Ao perceber o baixo número de mulheres em cargos de liderança nos studios de design, resolveu promover encontros entre profissionais na sua casa para conversar sobre trabalho e vida, sempre na companhia de uma boa taça de vinho.

Por mais incrível que possa parecer, essa falta de oportunidade para mulheres no meio criativo é algo muito presente em diversas partes do mundo. Até o momento, 120 cidades, para ser mais exata, já receberam o LWD.

No Brasil, apenas 3% das mulheres estão em cargos de liderança na indústria criativa, porcentagem que nós queremos aumentar. Por essa razão e por reconhecermos as peculiaridades do mercado gaúcho, decidimos, em parceria com a Néktar Design, trazer esses encontros para o sul do país. Em território nacional, eles já acontecem em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Para experimentar o clima de casa, formato no qual os encontros começaram em NY, fomos recebidas no terraço delícia da Néktar. Após inscrições disputadas, as 10 mulheres mais rápidas nos encontraram para falar sobre Design Autoral, papo facilitado pela designer Paula Langie.

Tornando o nosso evento ainda melhor, tivemos a companhia de marcas que nos apoiaram com o que elas tem de melhor: seus produtos. Nas comidinhas, o Mantra Restaurante nos enviou a suas gostosas samosas veganas, que combinaram muito bem com os fofíssimos mini cupcakes da Baunilha Cupcakes. Harmonizando nosso happy hour, contamos com a presença da Vinícola Guatambu, uma das poucas marcas do estado que é administrada por mulheres.

Falando em mulheres, eu já havia imaginado que o encontro fosse falar sobre questões além de trabalho, até mesmo porque não existe separação entre eu-pessoa e eu-profissional.

O que eu buscava no Ladies, e que considero bem difícil de encontrar, era um espaço para falar sobre trabalho sem sentir julgamentos e competitividade – e sim acolhimento e força. Quando se fala sobre o tema é muito fácil entrar em disputas de ego, sobre quem é melhor ou maior do que o outro, algo que não torna as conversas significativas.

Ser vulnerável é um dos grandes aprendizados que estamos passando como mulheres nos últimos tempos, acordando todos os dias e nos esforçando para se permitir acessar nossos lados femininos. Estar em um lugar com outras mulheres em outros tempos poderia significar opressão, pois muitas de nós, ainda que inconscientemente, reproduzimos comportamentos machistas. Porém, não foi isso que encontrei no Ladies, Wine and Design. Mesmo com muito para se debater, a problematização de padrões foi um assunto presente na pauta, independente do que estivéssemos discutindo.

Ser mulher e trabalhar com design não é muito fácil, ainda mais se pensarmos no contexto das agências de publicidade. Como algumas profissionais comentaram, muitas ainda funcionam no modelo Mad Men, onde a área criativa possui em sua maioria homens – brancos, heterossexuais e de classe média/alta.

Dentro desse modelo, assédio, machismo e desvalorização fazem parte do dia a dia. A masculinização de profissionais criativas – que por não terem espaço para expor suas opiniões, mesmo quando seus trabalhos estão sendo apresentados – acaba sendo desenvolvida como uma forma de se defender de tais adversidades.

Entrando no tema do encontro, Design Autoral, Paula nos contou como foi o processo por trás do projeto “365 dias para uma década”. Neste, o escritório fez uma contagem usando flores todos os dias até chegar na data de aniversário de 10 anos da empresa. Esse projeto rendeu um IF Design Award em 2016, além do conhecimento imenso sobre as flores presentes no sul do país.

Começamos a conversar sobre projetos autorais e paralelos, que as designers presentes realizavam ou tinham desejo de começar, o que revelou o fato de algumas estarem se sentindo sugadas pelas 8 horas de trabalho. Essas jornadas muitas vezes se estendem para além do horário e finais de semana, o que torna compreensível o fato de não terem muito tempo para fazer planos.

Aquelas que já se libertaram do horário fixo e se tornaram freelancers conseguem ter mais liberdade tanto para realizar projetos que tenham mais a sua cara quanto para pensar no que poderiam fazer além deles. Mas se engana quem pensa que é tudo uma maravilha desse lado dos negócios. Há uma demanda que quem tem carteira assinada dificilmente conhece, que é a relação com os clientes. Estar disponível, cumprir alguns prazos apertados e se manter sempre em movimento para conseguir os próximos trabalhos são algumas das responsabilidades de ser uma “eu-presa”.

Em meio a todas essas pautas, existe ainda o bendito portfólio, que, segundo Camila Andrade, “é o pior job de um designer”. Ele nunca está atualizado. Sempre tem um novo trabalho para ser incluído que acaba ficando pra depois, momento que dificilmente chega. Algumas designers, inclusive, nem tem esse material organizado.

Quando se pensa no dia a dia das designers, se percebe a importância do grupo nos espaços de trabalho. Ter alguém por perto para trocar referências, conversar sobre filmes, séries, vida, torna os momentos de pauta apertada menos estressantes. Por mais que seja difícil encontrar nas empresas várias mulheres trabalhando na criação, poder contar com a opinião de amigas antes de uma entrega ajuda a não se sentir tão sozinha – ainda mais para as profissionais que são home office.

Se sentir segura com relação ao trabalho também é uma questão complexa no design, pois muitas sofrem com a síndrome do impostor. Possuem dúvida sobre até que ponto suas entregas são boas, se realmente mereciam estar nas posições que ocupam, o que gera ansiedade e medo de serem descobertas em suas inseguranças.

Por outro lado, as profissionais que estão deixando a hesitação de lado nos revelaram como se posicionam em ambientes masculinizados. Uma das participantes contou que quando estava em reuniões para apresentar os resultados dos seus projetos, os demais colegas não a deixavam falar. Então, ela mudou a forma como se colocava nesses momentos e começou a pronunciar mais a voz, se fazendo ser ouvida.

Outra história bem legal foi de uma das designers que trabalha dentro do cliente, em desenvolvimento de produtos para a indústria. Percebendo a importância de entender os processos de produção para criar produtos que fizessem sentido na cadeia, começou a realizar visitas à fábrica para entender como melhorar seus resultados. No começo não foi fácil ser a única mulher naquele ambiente, mas aos poucos os colegas foram entendendo que ela estava focada no seu objetivo de ser muito boa no seu trabalho.

Ao abrirmos nossas referências, além de filmes e livros, o que andou pelos ouvidos das designers do primeiro encontro foram os podcasts. Como eu adoro uma boa indicação, resolvi trazer aqui os nomes citados:

Mamilos – acompanhado da frase “vocês PRECISAM conhecer, especialmente o que fala sobre Mulheres, Dinheiro e Independência. Áudio obrigatório que pode ser acessado, também, pelo Spotify.

Naruhodo – sobre curiosidades da vida.

+ Gorda – especialmente sobre filmes e séries

+ Fronteiras da Ciência – podcast produzido pela UFRGS, que busca falar sobre como funciona a ciência com uma linguagem acessível. Pode ser ouvido, também, através do aplicativo para Android.

+ Heroine – inclui esse porque estou apaixonada por ele. É em inglês, mas não é com um vocabulário complicado e busca compartilhar histórias reais, profundas e significativas de grandes líderes criativas sobre suas jornadas profissionais e pessoais <3

Só pra ti sentir mais um pouco como foi nosso encontro, algumas fotinhos que mostram a energia que trocamos nesse dia.

Aqui está a nossa agenda e qualquer dúvida pode nos enviar um e-mail para lwd.poa@gmail.com. Espero te encontrar nos próximos 🙂


Se você quiser mais informações sobre este tema, podemos conversar por email -