Ser Freelancer – por Túlio Notini | São Paulo

Conversar com Túlio foi uma delícia, pois mesmo morando em São Paulo há 3 anos, seu sotaque mineiro continua com ele. De formação ele é Engenheiro de Produção e enquanto morava em Belo Horizonte, trabalhava em um fundo de seed money, com inovação, tecnologia e startups.

Decidido que queria mudar sua área de atuação e cidade, começou a se inscrever em vários trainees, pois acreditava que esse era o meio mais fácil e rápido para a transformação que queria. Passou em algumas e escolheu aquela que lhe parecia mais próxima do que estava buscando.

Optou pelo programa da Kraft e na hora de decidir por quais vagas iria concorrer – surpreendentemente, nesta ele poderia “escolher qualquer coisa”, não precisando ser relacionado a sua área de formação (diferente de outros processos de trainee que se inscreveu). Inicialmente sua primeira opção era marketing, pois Túlio acreditava que assim poderia trabalhar com algo mais criativo. Porém, sua “fada madrinha” estava ali, Nívia responsável pelo RH, com quem ele fala até hoje.

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“Nívia me olhou e disse: Túlio, eu vi que você escolheu marketing. Tem uma área aqui que chama consumer insights, que pelo que a gente já te conhece tem muito a ver com o seu perfil pessoal e profissional. Ai eu falei, “o que é isso?” – e ela me explicou: “É uma área que trabalha com marketing, pesquisa, conhecimento de consumidor e pessoas.” Ai eu falei que era aquilo que eu queria fazer. Marquei consumer insights em primeiro e marketing em segundo. Como era uma única vaga de consumer insights acabei passando.”

Durante o trainee na empresa – atualmente chamada Mondelez – trabalhou em duas diferentes áreas. No primeiro ano foi em Trends and Targets, onde era responsável por pesquisas para multicategorias, buscando entender comportamentos e alavancando o conhecimento sobre as categorias, principalmente em target. Depois foi para Gums & Candies, trabalhanso para Halls e Trident, ficando mais com a pesquisa relacionada a marketing e inovação.

Quando saiu do trainee ficou 3 meses em período sabático. Tinha vontade de trabalhar com algo criativo, talvez em alguma agência. Lembrou das três que mais o chamava atenção, CO.R, Naked e Peralta, onde nesta última conhecia e gostava do trabalho de Max Nolan Shen. Entrou em contato com ele para saber se tinha alguma vaga disponível, mas teve uma surpresa, este havia se desligado da empresa e estava abrindo uma consultoria para trabalhar com branding, pesquisa e planejamento. Perguntou então, a Túlio, se ele tinha interesse em participar desse projeto e a resposta foi sim, mesmo com nenhum job previsto para o momento. Um mês depois Max ligou para ele avisando que havia um projeto novo, e desde então trabalham juntos.

Da vontade de ter uma consultoria que trabalhasse de uma forma mais fluida, Túlio conta que Max começou a organizar a Dervish, rede de cultural hackers que trabalha sem verticalidade entre os colaboradores. Tudo por lá é horizontal, na base da confiança e compromisso, não há cobranças, é muito do que cada um está disposto a entregar e todos são freelancers.

Na prática afirma que funciona da seguinte maneira: Na Dervish há muito forte a questão de compartilhar tudo, inclusive conhecimentos, como por exemplo, se Túlio sabe muito sobre algo, fez um projeto que pode falar um pouco ou um curso, ele vai e apresenta para o grupo. Atualmente são 15 profissionais, todos podem e devem prospectar. Se aparecer algum projeto ou se alguém for chamado para fazer uma proposta, esta pessoa fica como “dona” desse job – não de forma hierárquica, apenas para organizar algumas etapas. O responsável passa para os colaboradores as informações que tem sobre o trabalho e quem tiver interesse se manifesta. O “dono do projeto” decide quem ele irá chamar, avaliando as características do job, como por exemplo, se ele precisa ser feito muito rápido, serão necessárias mais pessoas e se há necessidade de algum conhecimento específico. Além disso, não há uma obrigatoriedade, pode-se apenas participar da rede para trocar experiências e não fazer nenhum trabalho.

Dessa forma as equipes de trabalho são transitórias mas com pessoas conhecidas, porque os colaboradores mantém contato. Mais do que projetos, Túlio considera que a força da rede é a troca de conhecimentos que existem entre eles.

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“A gente tenta trazer projetos para rede, porque sabemos que quanto mais fizermos, mais vamos trabalhar, mais a rede vai viver, mais ela vai ficar conhecida e mais gente vai nos chamar para trabalhar. Acreditamos muito na abundância. Assim conseguimos ser muito rápidos e financeiramente competitivos, porque a gente não tem estrutura física de empresa, mas conseguimos trazer profissionais muito bons para trabalhar.”

A rede Dervish é aberta, ou seja, qualquer pessoa que tenha o perfil de compartilhar e apreço pela economia colaborativa pode participar. Aqueles que estão entrando, também são convidados a contar sobre algo que sabem muito, para começar a “plantar a semente do compartilhamento”, pois logo este vai ouvir alguma experiência dos demais. Pensando em tornar o trabalho viável a todos, possuem uma pequena mensalidade para manter o site, google docs e e-mails ativos.

Comparando a vida de CLT com freelancer, Túlio percebeu algumas diferenças, como por exemplo, ter de pensar no dinheiro que recebe a médio e longo prazo. Este foi um dos aprendizados pelos quais passou, pois precisava se planejar para os meses que não surgissem projetos – algo que até agora não aconteceu.

Com a nova rotina, começou a sentir uma certa “carência social”, pois principalmente em pesquisa, tende-se a ficar muito tempo sozinho dentro de casa. Para isso, tem feito algumas tentativas, como ir trabalhar na casa de alguém ou combinar de ir em cafés com outros freelancers. Conta que em São Paulo há um movimento chamado Hoffice, onde as pessoas que trabalham home office abrem suas casas para receber outros profissionais que estão no mesmo formato, o que também é uma opção.

Sempre teve um ritual matinal, acordar, tomar banho e se preparar para trabalhar, isso dividia o Túlio trabalho do Túlio de casa. Porém, nas primeiras vezes em casa acabava se distraindo muito e o seu horário se alongava até 8, 9 horas da noite. Com o passar do tempo foi percebendo que as atividades que exercia até mais tarde não eram urgentes, e sim consequência de estar no ambiente e seguir fazendo.

Dessa forma, percebeu que precisava ser “muito caxias” com sua organização e ter seus horários, senão iria pirar. Tendo de se policiar em casa, organizou um método de foco: Ele senta para trabalhar, passam-se 50 minutos, o alarme desperta e ele tem 10 minutos para relaxar.

Outra questão que percebia era que os trabalhos avançavam para o final de semana, algo que hoje só acontece se for realmente preciso. Como faz muitas coisas em casa, cozinha, curte seus cachorros, o namorado, organiza tudo, agora consegue encaixar as viagens que quer fazer. Nos conta que tinha uma viagem marcada para Bonito, mas que antes de ir surgiu um trabalho. Muito franco sobre sua situação, falou aos colegas que poderia fazer, mas que estaria viajando. Dessa forma, passava o dia passeando, pelas 9 horas da noite sentava uma hora e resolvia a demanda do dia.

“Poder fazer minhas viagens é algo que eu acho incrível. Meus pais são do interior de Minas, se eu quiser ir pra lá e passar 15 dias, uma semana, eu consigo me programar para ficar lá com eles, sem ter prejuizo nem no meu trabalho nem no dos demais que estão no projeto. A vida de freela me deu mais tempo, está nas minhas mãos decidir o que eu vou fazer. “

“Poder fazer minhas viagens é algo que eu acho incrível. Meus pais são do interior de Minas, se eu quiser ir pra lá e passar 15 dias, uma semana, eu consigo me programar para ficar lá com eles, sem ter prejuízo nem no meu trabalho nem aos demais que estão no projeto. A vida de freela me deu mais tempo, está nas minhas mãos decidir o que eu vou fazer. “

Em contrapartida, sabe que ser freelancer “é muito de perfil”. Possui alguns amigos que começaram a fazer projetos neste formato, mas não conseguiram, acharam muito difícil, pois é preciso mudar todo um jeito de trabalhar que se está acostumado a vida inteira.

Conta não possuir muita “paixão” por grandes marcas. Acha que elas fazem um ótimo trabalho, mas nada que o motiva. Sua exceção é o Airbnb, por ter construído um conceito de negócio que o fascina, baseado na economia de compartilhamento. Suas referências são pessoas que vivem próximo dele, como Max da Dervish, Rita Almeida da CO.R, Paula Rizzo e o pessoal da Mandalah.

Ser freelancer | Mercado de Pesquisa

Refletindo sobre o trabalho dos freelancers, vê que houve um crescimento na procura por esse formato, e que este acontece de dois lados: Primeiro pelos profissionais bons que não estão satisfeitos, segundo pelas empresas que estão percebendo um bom trabalho sendo feito, conseguindo contratar por um preço menor – comparado aos valores de grandes empresas.

“Eu ganho mais como freela do que ever na minha vida. Claro que tem esse planejamento que eu tenho que guardar o dinheiro que eu ganho, mas é diferente. Eles vão pagar mais, porque não tem uma estrutura fixa e os custos da estrutura física, que encarecem muito qualquer projeto. E essas empresas perceberam que, se elas fizerem uma curadoria, saberem escolher os freelas o trabalho vai ser igual ou até melhor do que se o profissional estivesse lá dentro.”

“Eu ganho mais como freela do que nunca na minha vida. Claro que tem esse planejamento que eu tenho que guardar o dinheiro que eu ganho, mas é diferente. Eles vão pagar mais, porque não tem uma estrutura fixa e os custos da estrutura física, que encarecem muito qualquer projeto. E essas empresas perceberam que, se elas fizerem uma curadoria, saberem escolher os freelas o trabalho vai ser igual ou até melhor do que se o profissional estivesse lá dentro.”

A certeza de que estava indo pelo caminho escolhido, veio quando em um dia recebeu 3 propostas de projetos. Conta que tinha medo que os jobs fossem ser inconstantes ou difíceis, mas tudo foi acontecendo muito rápido. Afirma que o importante é fazer um bom trabalho, pois assim não tem jeito, haverão indicações e os projetos chegarão. O que é diferente de empresa, onde há espaço para se fazer um bom trabalho, mas ele pode não transparecer, ser enxergado pela hierarquia ou por uma série de questões políticas internas.

Comparando a cobrança entre ser funcionário e ser freelancer, percebe que se cobra mais, porque agora é Túlio com ele mesmo, não havendo ninguém para tomar decisões em seu lugar. Quanto as trocas que aconteciam dentro da empresa, ele não sente falta, pois consegue suprir isso através da rede. Refletindo sobre quando era funcionário, o que talvez acontecesse era uma cobrança repartida, pois em um projeto era sua chefe, ele e sua par, então eram várias pequenas cobranças que iam crescendo.

Não tem dúvida de que o modelo freelancer vai ser cada vez maior. Acredita que no futuro as pessoas irão trabalhar por projetos, até porque percebe muito as multiplas potencialidades que cada um tem. Acha, também, que cada vez mais haverá procura por esse mundo, porque não está mais funcionando do outro jeito, com os funcionários “encaixotados fazendo o que não gostam.” Além disso, ele não se vê “mudando de lado” por enquanto. Ainda não teve vontade de trabalhar em uma empresa, pois confia plenamente que irá continuar o que está fazendo por um bom tempo.

Quanto ao mercado brasileiro de pesquisa, percebe que as grandes empresas não estão mais conseguindo entregar resultados legais, que a criatividade e inovação estão nas menores. Vê até alguns de seus amigos que trabalhavam em consultorias se tornando freelancers, porque não conseguiam entregar soluções diferentes. Além disso, afirma que as empresas pequenas conseguem ser mais rápidas e cobrar mais barato pelos projetos.

Por fim, acha que São Paulo pode ser um pouco hostil quando se chega, então uma dica para quem está no começo seria conversar com o máximo de pessoas possíveis do mercado, porque elas precisam saber que há interesse nesse tipo de trabalho. “Tem que falar de você, do que você gosta, como você é, e para isso eu acho que aqui é muito aberto”, afirma.

Sem saber exatamente como poderia funcionar, considera legal conversar com quem já trabalha como freelancer, pois estes sempre indicam um ao outro, ou precisam de ajuda nos projetos. Conta que seria interessante, também, acompanhar o trabalho de algum amigo freela, para se ganhar maior segurança sobre o mercado. “Eu acredito muito na rede, são as pessoas que te conhecem que vão te indicar. Você tem que ir, conversar, que as coisas vão acontecendo”, declara.

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