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Como é trabalhar com pesquisa em Londres

Trabalhar com pesquisa é uma das muitas profissões que te possibilitam ser nômade – colocar teu computador embaixo do braço e ir conhecer o mundo. Por essa razão, fomos conversar com profissionais que já estão há um tempo morando no exterior, para entender como foi essa transição. Nossa primeira parada foi em Londres, onde entrevistamos a Antropóloga e Pesquisadora Louise Scoz.

Nosso objetivo com essa conversa foi entender as diferenças entre os mercados nacional e internacional, assim como as dificuldades e oportunidades de cada um. Dessa forma, se tu estiver pensando em ir se aventurar por terras estrangeiras ou se tem curiosidade em saber como funciona trabalhar fora do Brasil, algumas dessas informações podem te ajudar a esclarecer as ideias.

Mas antes, deixa eu te contar um pouco sobre Louise. Tudo começou na sua graduação em publicidade, escolha que se deu por ter percebido uma oportunidade de aprendizado sobre o lado pragmático da vida. Por ser introvertida, sempre se sentiu mais conectada ao pensamento abstrato e teórico do que com os aspectos práticos da vida profissional. Dando sequência ao curso, se formou pela ESPM-Sul, o que pelo bom relacionamento com os professores, possibilitou a abertura de sua empresa de pesquisa logo após formada, em 2009.

Mesmo trabalhando, o universo da academia nunca deixou completamente de fazer parte de sua vida. Ao conhecer a Antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, responsável por orientar seu trabalho de conclusão de curso, o desejo por conhecer mais sobre “a ciência do homem” se tornou realidade. Em 2012, Louise foi aceita como mestranda no programa de Pós-Graduação em Antropologia na UFRGS e, em 2014, para o doutorado na mesma instituição.

Dividindo seu tempo entre estudo e mercado, Louise trabalhava com pesquisa qualitativa e etnográfica enquanto se dedicava ao mestrado e doutorado. Foi, então, que em 2016, surgiu a oportunidade de estudar fora do país. Selecionada como Assistente de Pesquisa na University College London, a UCL, percebeu a abertura de um novo caminho para sua internacionalização.

Como sempre teve os dois lados – teórico, abstrato e mercadológico – sua ida para Londres não foi apenas para estudar. Depois de adaptada na universidade, conhecendo exatamente quais seriam suas demandas, começou a entrar em contato com alguns profissionais de pesquisa da cidade. Logo nas primeiras conversas percebeu que o mercado inglês era completamente diferente do brasileiro.

“A primeira diferença de cara é o jeito como a gente tem que se apresentar para esse mercado. As pessoas aqui são super ocupadas e focadas em trabalho. Não tem aquela coisa de socialização forte que tem o mercado de pesquisa no Brasil. Costumava sentar para tomar um cafezinho que durava tardes inteiras para estabelecer parceiras. Aqui não tem disso. É meia hora e é isso. Temos que ser concisos, objetivos e muito pragmáticos. Se você sentar com algum profissional de Londres para um café, ele geralmente vai te perguntar: qual foi seu último trabalho de impacto? Ele quer sentir se você saber comunicar o seu valor como profissional.”

Além disso, a demanda esperada pelo pesquisador é um pouco diferente. Louise afirma que, no Brasil, a pesquisa assumiu um espaço mais holístico e qualitativo, existindo um interesse maior em etnografia e em saber a “verdade” do consumidor na sua vida cotidiana. Em Londres, os profissionais se deparam com uma necessidade diferente, muito mais estratégica.

“Aqui o processo de pesquisa é mais experimental e quantitativa. Existe maior demanda por teste de produto, de serviço, vivências práticas com consumidores. Um instrumento fundamental para quem quer trabalhar com pesquisa em Londres é o portfólio criativo. Não basta mostrar relatório, storytelling, como você entende o consumidor. Tem que mostrar como isso se traduz em estratégia, insights e quais foram os resultados disso.”  

Quando se pensa em um mercado onde não se tem muitos contatos o networking é o primeiro passo. Louise afirma que no momento de contratação as pessoas pedem por referências. Dessa forma, seria interessante fazer parte de uma assessoria de recrutadores para os processos. Por mais que isso possa soar parecido com o Brasil, considera haver uma diferença fundamental.

“Aqui eles prestam atenção nas suas competências, não só em quem você conhece. As relações entre profissionais de pesquisa no Brasil são muito pautadas pela informalidade. Muitas vezes, conhecer alguém é mais importante do que as próprias habilidades como pesquisador. Aqui não é assim. Você tem que mostrar serviço.”

E, como em qualquer mercado onde tu não conhece ninguém, entrar em contato com os profissionais para marcar cafés e trocar ideias também é uma boa saída. Porém, venha com seu inglês na ponta da língua.

“Não tenha medo de fazer isso. Crie sua própria narrativa e invista em seu portfólio. Faz toda a diferença. E, claro, ser fluente em inglês é pré-requisito. Não tem como querer entrar no mercado sem saber falar muito bem. As pessoas prestam atenção na sua fluência.”

Considerando que você possa estar interessado em visitar Londres à procura de trabalho, Louise nos deixa uma dica: pensar com a cabeça de um local. Para quem é pesquisador e “vive as vidas dos outros como profissão”, aplicar essa sabedoria na própria carreira pode ser uma boa estratégia. Entretanto, vá com calma. Por sabermos criar relações muito rapidamente no Brasil, ir para o exterior com esse mindset pode ser frustrante nos primeiros momentos, pois as pessoas tem outras características culturais.

Londres é uma cidade internacional, habituada a conviver com pessoas vindas de todas as partes do mundo. Então, fique tranquilo, aproveite sua viagem e acredite no seu valor profissional. Se você estiver aberto para aprender com os residentes da cidade tudo vai dar certo.


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